quinta-feira, 14 de março de 2019

São as lágrimas de março…


Paulo Wescley M. Pinheiro
wescleypinheiro@hotmail.com

Os primeiros meses de 2019 se arrastam. Entre tragédias ambientais, incidentes, acidentes, caricaturas de seres humanos no poder, espraiamento da violência, reverberação do preconceito e anestesia geral na indignação coletiva organizada caminhamos naturalizando a unidade Estado Penal/Mercado ditatorial como elemento inexorável. A vida cotidiana sangra.
Na Nova Era dos Mitos, abrimos nossa caixa de Pandora e soltamos os espíritos da barbárie com a autorização simbólica da agressividade, das práticas bélicas como costume e da falsificação do real como religião. Não é só pau e pedra, são os tiros de sempre e, cada vez mais, achamos que é o fim do caminho. 

Na enxurrada diária mães e pais choram crianças mortas, enlameadas, incendiadas, assassinadas.  Quem acha que não estamos produzindo a barbárie na sociedade da exploração, opressão e da repressão comunga com acomodação de uma vida sem sentido, da banalização do que é humano e das dores inimagináveis. 

Sempre que somos acometidos por diversas tragédias um dessabor se espraia no cotidiano e logo surgem as mais diversas explicações para o conjunto de desgraças. Quando nossa lama não é somente moral, mas concreta, afogando trabalhadoras e trabalhadores, quando jovens sonhadores são carbonizados enquanto sonhavam serem jogadores de futebol, quando o vermelho perseguido não é somente ideológico, mas principalmente do sangue da juventude negra, da população LGBT e de tantas outras pessoas historicamente oprimidas, quando crianças são alvejadas friamente por jovens com seus troféus bélicos nas mãos, quando as farsas tomam contornos trágicos, quando os mitos desmascaram-se do seu moralismo e o conjunto da obra aparece em noticiários... quando tudo parece (e é!) um caos se estabelece o desencanto. 

Nesses momentos, não é incomum buscarmos no pensamento mágico as justificativas mais mirabolantes. Sobre os crimes ambientais e sociais assinados por CNPJs, ao invés da inoperância da regulação pública e da revelação pujante do aspecto mais feroz da mão invisível do mercado, despejamos as lágrimas e a direção dos olhos para o sobrenatural: castigo divino, provações, nuvens carregadas sobre o país, energia negativa, a via crucis de sempre. Quanto aos mitos e mentes perversas... a fé de sempre: o fundamentalismo religioso condimentando as notícias falsas.

Um tsunami por dia se estabelece na vida brasileira e não há sequer tempo para digerir um novo escândalo, uma fala bizarra de uma ministra, um depoimento irracionalista de um ministro, uma soberba descabida de um deputado. Ao mesmo tempo, não há como não engolir a seco os números, as mortes, o medo social diante da barbárie.

Assistimos, ainda estarrecidos, a universalização do sofrimento vivenciado nas periferias. O caminhar cheio de incertezas diante da vida, a convivência imposta diante da possibilidade da morte. O gosto amargo da vivência caótica nivela por baixo nossa indignação e o tempero dos discursos é puro torpor. As coisas se misturam, a avalanche de notícias nos toma, o espetáculo mórbido da vez precisa de seus espectadores.

Dos programas policiais aos cultos televisivos permanecemos aprofundando uma overdose de obscenas formas e cores de intolerância, descasos e modos de jogar para debaixo do tapete a complexidade do que vivemos. O nosso almoço é temperado pelo espetáculo das dores. Contra o ódio? Mais ódio! Contra as armas? Mais armas! Contra as mentiras? Mais mentiras! Contra as interrogações das perguntas difíceis, as exclamações violentas e repletas de cinismo.

Diante de tal quadro há muitas formas de pseudo-escape. A negação “memética” do ciberespaço, acostumada ao “desespero que é rir de tudo”, zombando do que chama de politicamente correto e dissimulando a famigerada liberdade de expressão. Há ainda as pequenas frestas de humanidade, evidenciando o reconhecimento da dor do outro, a empatia momentânea, ainda que se expresse quase sempre no minuto anterior das justificativas místicas e da resignação fatalista diante do suposto imponderável. 

No entanto, a energia que nos falta não é a do pensamento positivo, não é uma nuvem sobrenatural que nos acomete. Nossa tragédia é material, se concretiza quando degustamos cotidianamente a desumanização e cozinhamos nossas possibilidades nos fornos do protofascismo ou na fogueira das vaidades.

Entre a aurora assombrosa e o crepúsculo de fios de esperança costuramos nossos dias, com seus tecidos de contradições, limites e possibilidades, com a materialização de pesadelos e a necessidade de reconstruir sonhos coletivos. Os espaços genuinamente da classe trabalhadora ainda cheiram morfo, estão cobertos pelas migalhas neoliberais, conciliatórias e/ou pós-modernas. O ar rarefeito do carreirismo ainda toma de conta e a ausência de experiências humanizadoras grita: é a lama, é a lama! 

Quando o trágico é naturalizado, quando aprendemos a arte de catapultar suas causas e condicionalidades para o além ou para o aquém, matamos também a nossa possibilidade de reação. E quando, por um instante, a sensibilidade nos permite criar laços com aqueles que sofrem, vem o conjunto de uma sociabilidade alienada e alienante, com seu anzol e suas iscas, transformando o laço em nó... na garganta.

No terceiro mês do ano colecionamos perdas irreparáveis, muitas pessoais, outras tantas coletivas. As tórridas águas da onda da Nova Era anunciam o aprofundamento de um cotidiano cada vez mais distante de condições dignas de vida. O desmantelamento das esfareladas políticas sociais, as contrarreformas em curso, a educação punitivista e militarizada, a hostilidade como política e a a autorização simbólica para matar.

Se as lágrimas de março fecharão o seco verão não sabemos, mas já é hora de pensarmos em florescer uma nova primavera dos povos. Se não pararmos de constituir uma lógica desumanizadora, cada dia mais, nos amorteceremos diante da morte. O fast food de escândalos e tragédias tendem a acostumar nosso paladar. No espetáculo do caos o aperto no peito faz parte do combo. Até quando?

sexta-feira, 8 de março de 2019

Quando o carnaval chegar


Wescley Pinheiro
paulowescley@gmail.com

Eu tenho tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar...” - C. Buarque

No país da contradição a carne que queima no sol é temperada pelo riso que esconde e pelo riso que desvenda. O gosto dessa carne é o gosto dessa festa, agridoce, multiforme, bela e trágica, triste e sorridente, assim como a vida, mas muito mais pujante no despejar voraz de quatro dias alegóricos. Um escritor latino-americano já havia descrito a festa que é o corpo!

A festa dos sonhos e dos desafios, das máscaras que assombram e que encantam, das pernas que dançam como numa luta contra o real. A festa da carne que desnuda o corpo e a alma, acalenta dramas e encobre desafios. A festa que grita contra os detratores, debocha daquilo estabelecido, desmancha no ar certezas.

Do lado de fora imberbes tentam compreender, alguns desmerecer, outros vilipendiar. Entre o elogio ufanista e acrítico de sempre, as críticas intelectualóides antipáticas e o elitismo pedante fantasiado de moralismo, passam sorrateiras as ondas da mais bela (e terrível) contradição.

As onomatopeias brigam e beijam com os mais belos versos. As figuras de linguagens mais rasas disputam e se curvam ao lirismo feroz, os acordes mais pueris bailam e se abraçam aos arranjos sofisticados. As melhores e piores músicas do mundo foram feitas para/no carnaval.

Quem só conhece o lado ruim, ou o lado bom, ou o lado de fora, conhece pouco. É a celebração do absurdo, da reprodução de desvalores e da subversão deles. Não é ditadura da alegria, nem obrigação de ser feliz, mas é a coragem de sambar na cara da tristeza. O carnaval é tudo-ao-mesmo-tempo-agora e pode ser apenas o nada. Ele não tem receita nem forma. Pode ser a proteção e valorização das raízes e ainda sim a colheita de frutos melhores.

As críticas moralistas, rabugentas ou rancorosas não são novidades. Um outro compositor latino-americano já havia descrito que a felicidade é uma arma quente. Acertou em cheio! Como a alegria não é metralhadora, mas AK-47, os gritos e os risos atingiram a testa e incomodaram quem se alimenta de raiva, perfuraram seu orgulho e até a tentativa de reação saiu pela culatra.

Contra a carnificina dos nossos dias um carnaval de coragem. Com críticas problematizadoras, alegres e irreverentes. Críticas por dentro, no âmago do riso denunciante e na construção e reconstrução daquilo que há de mais belo na festa popular! A rua é do povo, o povo é da alegria e é direito cantar, dançar, sorrir e sonhar. Faz parte da luta.

Na Republiqueta onde o "Rei está Nu", onde a morosidade desmorona, onde as bananas se transformam em laranjas e a cultura é jogada no lixo, se vestir de palhaço e zombar da cara dos poderosos pode ser um fôlego para tirar do trono essa ganância no dia que “o morro descer e não for carnaval".

Tentarão nos enfiar em casa com medo, nos shoppings, nos templos, nas festas pagas, nos eventos plásticos, tentarão transformar exceções em regras, defecá-las sobre nós, fetichizando desvalores para desumanizar pessoas. Tentarão silenciar o povo, mas sempre haverá um bloco na rua botando pra gemer, o samba-denúncia escurecendo a avenida e a certeza de que somos melhores do que estamos sendo. Recordaremos, aos poucos, de que não somos feitos de ódio, rancor, desinformação e disputa. Tiraremos a fantasia bizarra e poderemos lutar contra as cinzas do reino da mediocridade.

Infeliz daquele que não tem carne de carnaval e que desconhece o viés libertador da profanação! Numa nação em que querem acabar com nossos direitos, tentam roubar nossa festa e nos fazer de palhaços: “Bobos-da-corte, uni-vos!"