Paulo Wescley M. Pinheiro
wescleypinheiro@hotmail.com
Os
primeiros meses de 2019 se arrastam. Entre tragédias ambientais,
incidentes, acidentes, caricaturas de seres humanos no poder,
espraiamento da violência, reverberação do preconceito e anestesia
geral na indignação coletiva organizada caminhamos naturalizando a
unidade Estado Penal/Mercado ditatorial como elemento inexorável. A
vida cotidiana sangra.
Na
Nova Era dos Mitos, abrimos nossa caixa de Pandora e soltamos os
espíritos da barbárie com a autorização simbólica da
agressividade, das práticas bélicas como costume e da
falsificação do real como religião. Não é só pau e pedra, são
os tiros de sempre e, cada vez mais, achamos que é o fim do caminho.
Na enxurrada diária mães
e pais choram crianças mortas, enlameadas, incendiadas,
assassinadas. Quem acha que não estamos produzindo a barbárie na
sociedade da exploração, opressão e da repressão comunga com acomodação de uma vida sem sentido, da banalização do que é
humano e das dores inimagináveis.
Sempre
que somos acometidos por diversas tragédias um dessabor se espraia
no cotidiano e logo surgem as mais diversas explicações para o
conjunto de desgraças. Quando nossa lama não é somente moral, mas
concreta, afogando trabalhadoras e trabalhadores, quando jovens
sonhadores são carbonizados enquanto sonhavam serem jogadores de
futebol, quando o vermelho perseguido não é somente ideológico,
mas principalmente do sangue da juventude negra, da população LGBT
e de tantas outras pessoas historicamente oprimidas, quando crianças
são alvejadas friamente por jovens com seus troféus bélicos nas
mãos, quando as farsas tomam contornos trágicos, quando os mitos
desmascaram-se do seu moralismo e o conjunto da obra aparece em
noticiários... quando tudo parece (e é!) um caos se
estabelece o desencanto.
Nesses
momentos, não é incomum buscarmos no pensamento mágico as
justificativas mais mirabolantes. Sobre os crimes ambientais e
sociais assinados por CNPJs, ao invés da inoperância da regulação
pública e da revelação pujante do aspecto mais feroz da mão
invisível do mercado, despejamos as lágrimas e a direção dos
olhos para o sobrenatural: castigo divino, provações, nuvens
carregadas sobre o país, energia negativa, a via crucis de
sempre. Quanto aos mitos e mentes perversas... a fé de sempre: o
fundamentalismo religioso condimentando as notícias falsas.
Um
tsunami por dia se estabelece na vida brasileira e não há sequer
tempo para digerir um novo escândalo, uma fala bizarra de uma
ministra, um depoimento irracionalista de um ministro, uma soberba
descabida de um deputado. Ao mesmo tempo, não há como não engolir
a seco os números, as mortes, o medo social diante da barbárie.
Assistimos, ainda estarrecidos, a universalização do sofrimento vivenciado nas periferias. O caminhar cheio de incertezas diante da vida, a convivência imposta diante da possibilidade da morte. O gosto amargo da vivência caótica nivela por baixo nossa indignação e o tempero dos discursos é puro torpor. As coisas se misturam, a avalanche de notícias nos toma, o espetáculo mórbido da vez precisa de seus espectadores.
Dos programas policiais aos cultos televisivos permanecemos aprofundando uma overdose de obscenas formas e cores de intolerância, descasos e modos de jogar para debaixo do tapete a complexidade do que vivemos. O nosso almoço é temperado pelo espetáculo das dores. Contra o ódio? Mais ódio! Contra as armas? Mais armas! Contra as mentiras? Mais mentiras! Contra as interrogações das perguntas difíceis, as exclamações violentas e repletas de cinismo.
Diante de tal quadro há muitas formas de pseudo-escape. A negação “memética” do ciberespaço, acostumada ao “desespero que é rir de tudo”, zombando do que chama de politicamente correto e dissimulando a famigerada liberdade de expressão. Há ainda as pequenas frestas de humanidade, evidenciando o reconhecimento da dor do outro, a empatia momentânea, ainda que se expresse quase sempre no minuto anterior das justificativas místicas e da resignação fatalista diante do suposto imponderável.
No
entanto, a energia que nos falta não é a do pensamento positivo,
não é uma nuvem sobrenatural que nos acomete. Nossa tragédia é
material, se concretiza quando degustamos cotidianamente a
desumanização e cozinhamos nossas possibilidades nos fornos do
protofascismo ou na fogueira das vaidades.
Entre
a aurora assombrosa e o crepúsculo de fios de esperança costuramos
nossos dias, com seus tecidos de contradições, limites e
possibilidades, com a materialização de pesadelos e a necessidade
de reconstruir sonhos coletivos. Os espaços genuinamente da classe
trabalhadora ainda cheiram morfo, estão cobertos pelas migalhas
neoliberais, conciliatórias e/ou pós-modernas. O ar rarefeito do
carreirismo ainda toma de conta e a ausência de experiências
humanizadoras grita: é a lama, é a lama!
Quando
o trágico é naturalizado, quando aprendemos a arte de catapultar
suas causas e condicionalidades para o além ou para o aquém,
matamos também a nossa possibilidade de reação. E quando, por um
instante, a sensibilidade nos permite criar laços com aqueles que sofrem, vem
o conjunto de uma sociabilidade alienada e alienante, com seu anzol e suas iscas, transformando o
laço em nó... na garganta.
No terceiro mês do ano colecionamos perdas irreparáveis, muitas pessoais, outras tantas coletivas. As tórridas águas da onda da Nova Era anunciam o aprofundamento de um cotidiano cada vez mais distante de condições dignas de vida. O desmantelamento das esfareladas políticas sociais, as contrarreformas em curso, a educação punitivista e militarizada, a hostilidade como política e a a autorização simbólica para matar.
Se as lágrimas de março fecharão o seco verão não sabemos, mas já é hora de pensarmos em florescer uma nova primavera dos povos. Se não pararmos de constituir uma lógica desumanizadora, cada dia mais, nos amorteceremos diante da morte. O fast food de escândalos e tragédias tendem a acostumar nosso paladar. No espetáculo do caos o aperto no peito faz parte do combo. Até quando?