quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O preconceito regional no futebol e a alegoria de Brecht: ainda sobre a polêmica dos mistos

Não é nada nova a atuação que se concentra em chamar de preconceito a reação diante da estrutura desigual que forma os privilégios naturalizados, jogando para as parcelas oprimidas a responsabilidade da lógica violenta que se reproduz no cotidiano e que, quando é criticada, põe em xeque o ethos estabelecido: "heterofobia, racismo reverso, femismo" são expressões corriqueiras utilizadas no senso comum para colocar na mesma balança da intolerância a reprodução das opressões e a reação diante delas. 

Isso fica ainda mais evidente quando trazemos à baila questões das desigualdades regionais do Brasil e de toda a estrutura que determina preconceitos, normalizações e normatizações que impõem o sufocamento da diversidade cultural em detrimento de uma hegemonia que acompanha o poder historicamente estabelecido. 

Quando particularizamos o tema no futebol a coisa ainda é levada com argumentos pueris, mesmo por pessoas esclarecidas e que buscam dialogar com um tom minimamente progressista em outras questões. Não é difícil de compreender como as contradições não se tornam visíveis nem sobre o preconceito regional contra o Nordeste ou, se quiserem chamar, xenofobia interna, nem com relação ao processo de desenvolvimento desigual no futebol. 

Tradicionalmente os movimentos sociais que pautam as opressões, os partidos clássicos da esquerda ou as organizações sindicais pouco deram importância para a constituição estruturante que a produção de uma perpetuação da escassez no Nordeste, que possibilitou as condições para o fenômeno de uma migração interna no País e desenvolveu as possibilidades de uma exploração intensa da classe trabalhadora dessa região, estruturando a modernização brasileira junto das raízes escravocratas, patriarcais e da submissão ao imperialismo.

Sobre a articulação dessas questões, sua expressão no mundo do futebol e o aparecimento dos torcedores dos grandes clubes do país em todas regiões tratamos de modo panorâmico no texto “O TORCEDOR MISTO, O FUTEBOL E O NORDESTE: O QUE FAZER DIANTE DA HEGEMONIA?”. Tentaremos não nos repetir, nos concentrando aqui somente no quão reveladora pode ser a acusação de “xenofobia reversa” diante das ações - para mim problemáticas do ponto de vista estratégico - de valorização do torcedor do Fortaleza por parte do clube, na promoção da partida contra o Flamengo. 

As razões por não achar inteligente a forma como corriqueiramente tem se tratado o assunto “misto” também estão no texto supracitado, agora, quero tecer considerações sobre como a revolta diante dessas iniciativas são capciosas. O relativismo e a lógica presentista são as características mais relevantes diante do tema para os progressistas de plantão. 

Para os setores revoltosos não há história, não há nada além do futebol que estruture a hegemonia dos clubes de maiores torcidas do país: “Gigantes pela própria natureza”, o passado de glórias é meritocrático e o presente que se reproduz na desigualdade financeira e de tratamento na mídia é apenas resultado do seu sucesso histórico e direção do mercado.

Obviamente, para eles, tudo isso difere de modo radical do fenômeno que arregimenta ampliação da moda das torcidas por clubes europeus ou mesmo do pensamento diante de outros temas como a indústria cultural cinematográfica ou musical. Nas suas cabeças é diferente também de questões relevantes sobre os motivos da perpetuação dos sotaques sudestinos serem tidos como os oficiais do país ou mesmo sobre como reproduzimos a lógica do sub-emprego para os nordestinos migrantes. 

Nessas defesas a bandeira da "liberdade individual" também aparece à tona, tal e qual ocorre para os liberais contemporâneos, referendada de forma abstrata e abstraída das condições históricas que fizeram com que as coisas do presente estivessem como estão. Nessa direção, os incomodados entendem que a prateleira das escolhas atuais não foi edificada por nada desigual e criticá-la é ser um autoritário, alguém antidemocrático. 

No julgamento sudestino o passado é uma roupa que não serve mais, bastando que se respeite o que cada indivíduo quer fazer e escolher, pois pautar desigualdades históricas só eleva a intolerância, denunciar cisões estruturais apenas amplia a violência, demonstrar discriminação e posicionar diante da hegemonia é também uma forma de preconceito. Esse tipo de postura lembra alguma coisa? 

Nessa perspectiva, quem dividiu o país do futebol e o futebol do país não foi a estrutura desigual que condiciona os sujeitos para a manutenção do status quo, rebaixa as culturas periféricas do mapa do Brasil e amplia a desigualdade financeira, inclusive, dos clubes. Quem dividiu o país foi a retirada do sabor da pizza mista da cantina do Fortaleza Esporte Clube. 

A luta contra o preconceito e a busca por tolerância diante da escolha individual para quem torcer, tão visível nos últimos dias, é proporcional a invisibilidade diante da falta de indignação por todas as outras rodadas do campeonato brasileiro onde as torcidas gritam de forma pejorativa contra os nordestinos. 

É também inversa à indignação contra a falta de igualdade, equidade, isonomia e, sim, reparação histórica, diante da divisão das cotas televisivas para os clubes que disputam o mesmo campeonato. Como costuma falar o grande Gil Luiz Mendes, comandante da bancada do revolucionário podcast Baião de Dois, não há comunistas nas torcidas dos grandes clubes quando se fala em divisão das cotas de TV, nesse tema, todo mundo defende a meritocracia. A prática se repete nos estaduais na relação clubes da capital versus interior. 

Também não se percebe indignação semelhante sobre a minutagem dada dentro da “grande mídia nacional” para o futebol fora do circuito Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Aliás, quantos são os jornalistas nordestinos de relevância nacional? Quantas são as faculdades de comunicação social que ainda dizem para diminuir o “sotaque carregado” diante do apelo do mercado? Como são tratados os erros de arbitragens quando ocorrem para os chamados “times pequenos”? Que tal pensarmos também quantos são os treinadores nordestinos nos grandes clubes do país? E quantas vezes os clubes do RJ e SP se posicionaram diante das manifestações preconceituosas que os nordestinos sofrem em seus estados? Há microfones voltados paras as ofensas proferidas nas arquibancadas da parte de baixo do mapa do Brasil? Claro, tudo questão de meritocracia.  

Na indignação casual do dia 16 de outubro de 2019 a hashtag #ONordesteéFlamengo foi levantada por sua enorme torcida. É verdade, boa parte do Nordeste torce para o Flamengo, mas isso não é por acaso e nem é por razões somente circunscritas ao campo de jogo. No entanto, o Nordeste é bem mais, ele é o conjunto de clubes centenários que resistiram e sobreviveram ao boicote da CBF, da mídia, do mercado, do Estado. De clubes que não sucumbiram mesmo com as administrações amadoras e desastrosas em suas trajetórias, que vivem apesar das elites nacionais e regionais retrógradas, que persistem e teimam sem a visibilidade, o lobby e o dinheiro dos clubes gigantes.  Quando falamos de Nordeste e futebol ainda tratamos a região como um território cheio de apaixonados pelo esporte, mas de coadjuvantes pelo acaso ou por incompetência. Não é bem assim. Talvez estejamos cansados de assistir pela tela (e não se ver) ou "raramente" no estádio (e não ser visto).

É bastante curioso que grande parte da imprensa brasileira e dos torcedores dos clubes gigantes desse país continuem a repetir que é violento o rio que tudo arrasta, mas que sejam os mesmo que nunca recordam das margens que o oprimem. É um direito questionar a forma como se constituem as ações “antimisto”, mas questionar o seu mérito e conteúdo é uma profunda hipocrisia, somente compreensível para aqueles que estão tão mergulhados na hegemonia que não conseguem enxergar os privilégios historicamente construídos. 

Nenhum debate e iniciativa que potencialize a hostilidade e o desrespeito pode ser tolerada. O debate sobre os "torcedores mistos" é, portanto, complexo e não pode caminhar para ações que tentem combater a desigualdade estrutural reproduzindo a indignação em cima daqueles que apenas são produtos da mesma e que fazem parte da parcela do país que sofre com as cisões sociais que até hoje se aprofundam. O ponto da discussão precisa ser este. É fundamental que o futebol seja um lugar para descortinar as contradições, que possibilite reflexão e que amplie as possibilidades de combater todas as formas de opressão. 

Querem falar de combate ao preconceito? Falemos em sua totalidade e paremos de mistificar a grandeza sudestocêntrica como algo natural. Não sejamos condescendentes e, de repente, não mais que de repente, resolvamos querer tolerância somente quando convém.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O TORCEDOR MISTO, O FUTEBOL E O NORDESTE: O QUE FAZER DIANTE DA HEGEMONIA?


Wescley Pinheiro

paulowescley@gmail.com
O assunto “misto” mexe com muita gente: com aqueles/as que torcem por dois ou mais clubes, com aqueles que dizem que isso é impossível ou vergonhoso, com aqueles que dizem que tem as maiores torcidas, seja do Brasil, seja nos estados, mas que, desconsiderando essa parcela, teriam uma quebra substancial em seus quadros quantitativos. 

O futebol é paixão, mas é também razão e seja qual for sua opinião sobre o assunto, quer você queira ou não, existe gente que torce diferente de você e esse não é um problema. A realidade é que tanto nordestinos que torcem exclusivamente para os representantes do eixo Rio-São Paulo, quanto os famigerados mistos, existem e, estes últimos, colocam em xeque o “amor monogâmico” que é tido como a única instituição que deu certo nesse país, posto que, nos acostumamos a repetir que no Brasil se troca de religião, partido político, marido/esposa mas nunca de time. 


Não há uma definição exata do que é ser torcedor. Esse ser e estar “torcedor” tem a ver com identidade e, pelo menos até hoje, ainda é algo auto-declaratório nesse país, não cabendo ao outro dizer se você é ou não bastando, portanto, você querer. A questão é que nossos gostos individuais também são formados a partir de questões historicamente determinadas e eles representam e reproduzem elementos particulares nesses processos. 

Dentro de um esporte marcado pelo negócio, o contorno do que faz um torcedor “de verdade” tem muito a ver com o consumo, seja ele direto, com a contribuição nas receitas oriundas da venda de ingressos e produtos oficiais, seja no consumo de informação e engajamento, com o acompanhamento na mídia, gerando fortalecimento da marca que, em última instância, atrai patrocinadores, amplia a barganha nas cifras financeiras das transmissões televisivas e alarga a força simbólica da instituição clubística diante de sua eventual magnitude quantitativa. 

Dito isso, há um problema na equação “misto” dentro da nação continental: os torcedores “não praticantes”. A expressão utilizada aqui é aquela mesma quando falamos de religião e não por acaso. Tal e qual na questão do sagrado, o Brasil - nação forjada na cruz e na espada - foi colonizado pela cultura judaico-cristã eurocêntrica e desenvolvida na hegemonia da Igreja Católica tendo uma aproximação quase simbiótica com o Estado em muitos momentos de nossa história. Como não poderia deixar de ser nos acostumamos a afirmamos uma religião, mesmo que não a sigamos em suas minúcias fundamentais, ou seja, religiosamente. 

O futebol segue a mesma (não) prática, visto que aprendemos que é bom ter um time de futebol e que esse time de futebol precisa ser vitorioso. O padrão da religiosidade futebolística resguarda mais fluidez do que parece. A construção de torcidas que são vista como "nações" se processam dentro dessa lógica. Por isso aprendemos a torcer a partir da hegemonia que formou o país. Ela é inimiga da diferença, tem ojeriza à isonomia e instrumentaliza a falta de diversidade. Dessa forma, a revolta diante do “misto” é uma revolta contra-hegemônica, ainda que ela se expresse, por vezes, de forma equivocada e reproduzindo a própria hegemonia. 

A polêmica que envolve os nordestinos que torcem para clubes da região sudeste é complexa. E sabemos que tudo que é complexo se torna ainda mais quando se trata de futebol e seu coquetel tresloucado de paixões e supostas verdades absolutas. Assim, quando as diversas posições são colocadas de forma rasa e apressada parece que ninguém tem razão. 

É verdade que não se pode equiparar a revolta contra os mistos com o preconceito regional construído por parcelas de pessoas do Sudeste diante do povo nordestino. Esse argumento aparente apenas confunde a reação do oprimido diante da estrutura opressora. Mesmo que se possa discordar da forma como se tem colocado o dedo nessa ferida é preciso que isso seja feito, obviamente, levando em conta toda a complexidade que envolve tal ato para que nos revoltemos contra quem produz a desigualdade e não contra quem a manifesta.


É chover no molhado falar sobre que o processo de hegemonia do sul-sudeste no futebol apenas acompanha o desenvolvimento desigual e combinado da constituição socioeconômica do país, forjada numa reprodução do modelo colonial/imperialista, assumindo sua tradição patriarcal, escravocrata e patrimonialista e que, não por acaso, concentra seu desenvolvimento naquela região, construindo sua modernização numa inclusão precarizada e marginalizadora das populações descendentes dos povos originários, dos povos escravizados e da classe trabalhadora nordestina. 

Esse processo que privilegiou a contratação formal oriunda do fenômeno migratório internacional, a partir do estrangulamento do exército industrial de reserva europeu na passagem dos séculos XIX para o século XX e que amplia, entre outras coisas, o gosto pelo futebol, fincou para essas outras populações supracitadas a esfera marginal: a tarefa do sobretrabalho informal, as práticas análogas à escravidão, o rebaixamento, a criminalização e a patologização de suas culturas e práticas, além da reprodução cultural de superioridade regional sul-sudestina, constituída nos ombros, no suor e no sangue de migrantes nacionais que estruturaram a possibilidade da capenga industrialização brasileira, da urbanização desordenada e da perpetuação do latifúndio no tradicional metamorfoseado “Brasil moderno”.

A política que solidifica a indústria da seca, que naturaliza desigualdades e reduz possibilidades dos “sobrantes úteis” desse país continental também vem acompanhada de hegemonia cultural que condiciona o sotaque correto, a música correta, a arte correta, os clubes corretos para torcer. O Brasil oficial é resultado da miscelânea das elites que passaram pelo império, pela República Café-com-leite, pelo Estado Novo, pela ditadura civil-militar de 1964 e se perpetua até hoje calando a diversidade em todos os espaços. 

A Rádio Nacional e suas similares, posteriormente, a Rede Globo de Televisão e suas similares concentraram a formação da suposta identidade nacional a partir dos interesses de quem paga o seu microfone e a sua lente. O futebol faz parte desse processo. São décadas ouvindo e vendo vitórias e derrotas dos clubes do eixo. São anos e anos aprendendo que torcer pelo rádio e pela televisão é a forma correta. São dezenas de anos invisibilizando a construção historicamente determinada de desigualdade no país, inclusive entre os clubes de futebol. 

Nesse sentido, a frase “não é apenas futebol” nunca foi tão verdadeira. Ter a consciência disso, no entanto, não faz quem cresceu desde a infância nutrindo sentimento por um clube do Rio de Janeiro, um clube de São Paulo e um clube do seu estado, diminuir imediatamente sua paixão. O afeto não se desconstrói apenas pela racionalidade abstrata. Nesse fenômeno é preciso construir uma outra hegemonia, é fundamental desenvolver um processo contínuo, demorado e estratégico diante de um império naturalizado, mistificado e duramente construído. 

Por isso, quer você queira ou não, para a construção da valorização de uma cultura regional o misto é um avanço histórico, pois demonstra um crescimento dos clubes da região nordeste, já que, obviamente,  existirem não mais apenas torcedores dos clubes do sudeste é um sinal de melhoria. 

Além disso, esse tipo de torcedor/a abre um leque de possibilidades de ser conquistado/a, pois passando a acompanhar o futebol regional, pode ir ao estádio, pode aprofundar sua identidade com o clube local, seja porque percebe a beleza da torcida, seja por que passa a vivenciar com mais proximidade o tamanho da desigualdade e injustiça que é promovida pela estrutura futebolística sudestocêntrica. 

Nesse processo, esse sujeito passa a perceber a mídia, a arbitragem enviesada e, inclusive, o preconceito e a discriminação com que parte da torcida desses clubes hegemônicos tem com o povo nordestino, bastando ir aos jogos em seus estados de origem contra nossos times e compreender como somos tratados e qual a imagem que se tem do nosso povo. Uma ida ao Maracanã ou ao Pacaembu para realizar seu sonho de televisão pode se transformar numa revoada de nomes pejorativos… um “paraíba” pra cá, um “baiano” pra lá, um “passa fome” ou somente o velho “cabeça chata”. 

Eu já fui um misto na infância e depois eu também já fui um dos que acreditava que chamar a torcida nordestina pelos clubes do eixo de “Vergonha do Nordeste” era uma forma aceitável. Compreendo que a revolta e a raiva fazem também parte de um fenômeno reativo diante dos preconceitos, da discriminação, da xenofobia e de toda essa desigualdade construída que falamos acima. No entanto, hoje penso que tal atitude não somente não colabora para o desenvolvimento de uma outra cultura futebolística como caminha num terreno perigoso do suposto combate da hegemonia quanto, na verdade, atinge apenas o sujeito que a reproduz e é, em suma, alguém atingido pela mesma. 


Não me parece nada inteligente nordestinos hostilizando nordestinos. Muito menos parece ser coerente combater intolerância e discriminação contra pessoas que também sofrem, ainda que elas se identifiquem com sujeitos que reproduzam tais atitudes. Por fim, não é taticamente producente afastar pessoas que gostam de futebol, que estão territorialmente perto e que poderiam paulatinamente se aproximar do clube que torcemos, mas que, por capricho, ou por tentativa de universalização da sua forma particular de torcer, haja uma necessária repulsa ao indivíduo que também pode está financiando seu clube, incentivando os atletas na arquibancada e criando um processo de identificação.

Racionalmente falando, quanto mais pessoas se encantando com a torcida do meu clube, criando simpatia, se aproximando, acompanhando as ações, comprando produtos e valorizando a marca, melhor para meu time, seja essa outra pessoa um torcedor exclusivo ou não. No futebol-negócio ter mais condições financeiras é ter mais possibilidades de atingir mais gente, de gerar mais públicos e de fidelizar mais pessoas. O misto de hoje é um potencial não misto amanhã .

Apaixonadamente falando (e politicamente pensando diante da questão histórica sobre o Nordeste) é preciso compreender que não se acaba com os mistos gritando contra nordestinos. É preciso conquistá-los, sobretudo, é preciso conquistar as novas gerações. Acabar com os mistos é tornar os clubes nordestinos cada dia mais visíveis. É gerar conteúdo próprio, mídias alternativas, é pensar formas de constituição de uma nova cultura e, sobretudo, é fazer clubes do tamanho da paixão nossas torcidas.

Quer acabar com os mistos? Isso acontecerá com vitórias dentro de campo, com política de formação de plateia, com o fortalecimento do clube no interior do estado, com o desenvolvimento de ações para além do futebol que façam do clube uma experiência cotidiana do povo nordestino. 

Quer acabar com os mistos? É preciso se posicionar socialmente, que o clube tenha responsabilidade institucional diante de questões que atingem seu povo, construir ações estruturadas de popularização do estádio, dos produtos e da vivência do esporte. Se o nordestino antes de tudo é um forte, nossa fortaleza está em resistir, existir de forma concreta, criativa, pujante, leal. 

Encantemos nossos conterrâneos e mostremos que vencendo ou não em campo eles estão perdendo a verdadeira glória que é ficar ao lado de seu sotaque e de sua beleza na arquibancada. Se um misto estiver do outro lado da arquibancada assistirá de camarote o verdadeiro show do futebol brasileiro: a arma quente que é a felicidade da torcida nordestina por nossos clubes. 

(aqui continuo o debate diante das acusações de preconceito e "xenofobia reversa")

terça-feira, 11 de junho de 2019

Entre a cruz e a espada, a batalha das ideias e um Bispo necessário

Paulo Wescley M. Pinheiro
 Professor da UFMT
 paulowescley@gmail.com

O obscurantismo vai costurando sua perversidade por todos os âmbitos e a desesperança fortifica o medo social no tempo histórico da barbárie. Se a vida pede coragem, envoltos na atmosfera temerosa e fatalista é preciso lembrar a famosa frase do Bispo Pedro Casaldáliga de que “o problema é o medo de ter medo”. Se no momento atual de incertezas há muito o que temer é também importante que esse medo impulsione o enfrentamento dos monstros reais e a dissolução das formas fantasmagóricas.

Na guerra de narrativas, na peleja simbólica e na batalha das ideias muito tem se escondido da retroalimentação da luta de classes. Perdidos entre encruzilhadas e facas de dois gumes estamos carentes de direção, de lideranças e de predileções, buscando soluções mágicas em convicções frágeis e apostas desesperadas numa banca falida.

Há que se superar quimeras, cultivar a coragem do cotidiano e encarar a necessidade da paciência histórica diante das determinações do mundo como ele está. Uma famosa frase de outro lutador das causas sociais diz que “a prática é o critério da verdade”, assim é crucial que voltemos nossos olhos e lentes mais profundas para aquilo que se esconde na reprodução corriqueira dos desvalores sociais e para os exemplos de luta naquilo que se efetiva na vida do povo.

Por isso tenho insistido em olhar para essas questões com atenção especial e me repetido que não basta criticar o conservadorismo, que não adianta apenas apresentar as incoerências, muito menos tripudiar em cima dos fatos que jorram dos escândalos oriundos das práticas dos hipócritas e oportunistas. A disputa real está em potencializar cotidianamente a afirmação que nenhum espaço da vida do povo é propriedade da direita, dos protofascistas e dos setores das milícias reais e virtuais. Para isso é preciso relembrar e fortalecer quem sempre buscou demonstrar possibilidades em todos os espaços, inclusive, na religião.

Em tempos de cruzes laminadas e da sacralização das espadas se perpetua o mito de que a espiritualidade cristã caminha necessariamente com a intolerância, com a arrogância e com o comprometimento político com o fundamentalismo religioso e a ideologia ultraliberal da economia. 
No apogeu do protofascismo brasileiro as facções que catalisaram um “cristianismo de ódio” cresceram, caminharam pelos rincões do país e pelas vielas da periferia, ocupando o vácuo do Estado e a ausência de políticas sociais universais, o distanciamento dos movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda, além do enfraquecimento da formação política popular com sentido emancipatório em todos os espaços.

Obviamente, não é novidade que a história do Ocidente tem a cultura judaico-cristã e a estrutura religiosa como um importante pilar cultural do ethos moderno, burguês, branco, machista e eurocêntrico e que o processo de colonização impetrou particularidades históricas que fermentam as características da formação sócio-histórica do Brasil. No entanto, essa constatação em vez de enterrar os religiosos numa vala comum revela ainda mais a importância dos sujeitos individuais e coletivos que se expressaram na contracorrente desse processo.

Nesse percurso, a ação orquestrada na Igreja Católica, a partir dos anos 1980, de dilapidar o humanismo cristão latino-americano da Teologia da Libertação casou com o fortalecimento dos setores neopentecostais do protestantismo, onde foi ganhando espaço uma lógica ampla que unificava a forma modernizada da indústria cultural com um conteúdo reacionário nos valores morais, articulando a potencialização da lógica neoliberal individualista e consumista com questões tradicionais.

Esse processo se solidifica com o crescimento da ocupação da política formal por indivíduos e grupos fundamentalistas e reverbera a construção histórica do patrimonialismo brasileiro, da dificuldade de efetivação de um Estado laico, questão também fortalecida pelos recuos constantes dos governos ditos progressistas e sua ampliação dos conchavos políticos para alimentar os demônios que, tão logo se aprofundasse as expressões de crise do capital, viriam os engolir.

No ano de 2013, enquanto pulsavam nas ruas as famigeradas grandes manifestações, tão discutidas e tão pouco compreendidas em sua complexidade, eu, como mestrando, finalizava uma pesquisa que buscava compreender a questão dos valores religiosos, do crescimento do fundamentalismo e do choque dessa questão dentro da formação acadêmica do curso de serviço social.

Naquele estudo já era visível como havia um crescimento das tensões, de um revisionismo histórico e ideológico que vilipendiava no cotidiano possibilidades pedagógicas de debater o princípio da laicidade, da tolerância, do respeito e da diversidade e isso ocorria principalmente por esse fenômeno mais amplo do papel religioso na cena política, mas também apareciam os problemas de efetividade de disputa presente no debate contra-hegemônico. A despeito do crescimento na esfera pública de debates importantes sobre direitos de setores historicamente oprimidos ocorria, concomitantemente e paulatinamente, uma desconexão com a capacidade de enraizamento desses debates nos setores populares.

Nesse sentido, pensando a atual conjuntura é preciso pontuar como foi (e tem sido) ineficaz o contraponto centrado apenas no apontamento dos equívocos de quem reproduz os discursos de opressão e menos no combate de quem articula e estrutura esse fortalecimento. Assim, a “hegemonia da contra-hegemonia” tem circulado no pragmatismo eleitoral, na naturalização das (im)possibilidades conjunturais e, quando busca sair disso, caminha apenas na esteira dos discursos em-si-mesmados, sucumbindo às particularidades em particularismos, potencializando falas apenas entre aqueles que já se tem identidade e convencimento.

A atuação política performática instrumentaliza condições, reza para convertidos e joga no inferno a principal parcela dos sujeitos que sofrem as opressões. O não-diálogo é o princípio do espírito do tempo histórico da barbárie não somente entre os conservadores. O resultado são os gritos sem direção, as guerras meméticas, divertidas mas estéreis e a incapacidade de descer do céu dos discursos e símbolos e pisar no chão da realidade concreta das pessoas que sofrem, vivem e reproduzem os valores que temperam sua própria exploração e o conjunto de complexos que os oprimem.

Pensando tudo isso e angustiado por menos ilusões de atalhos e muito menos escapismos pós-modernos, eu que sou um crítico ferrenho dos limites da estratégia democrático-popular e que estou convencido que seus problemas não foram somente táticos nos últimos anos, penso que é fundamental reconhecer suas práticas e experiências de mobilização e atuação na segunda metade do século XX e tudo que se construiu na luta por democracia, pelos direitos humanos e na construção de possibilidades de enfrentamento do conservadorismo brasileiro dentro da realidade das pessoas, partindo do cotidiano, formulando teoricamente, mas sem perder de vista o diálogo efetivo com a concretude da vida.

Na seara das disputas dentro das religiões cristãs poderíamos citar muita gente na atualidade, poderíamos nominar pessoas como o Pastor Ricardo Gondim, poderíamos citar coletivos como as Católicas pelo Direitos de Decidir, poderíamos relembrar fatos recentes como a posição importante da CNBB em abril de 2017 contra a contrarreforma da previdência de Temer. Nesse sentido, se exemplos não faltam, nesse momento de desesperança, rememorar práticas inspiradoras é fundamental, por isso, é preciso reavivar um daqueles que marcam com sua vida a história e fazem de sua existência a materialização de que vale a pena lutar.

Dois dias antes de uma greve geral, em tempos de sobrevivência ameaçada da universidade pública, da criminalização do pensamento livre e da demonização da ciência, da ética e da política a vida de um religioso marcada pela resistência, pela ruptura de cercas e pelo enfrentamento dos cercos terá sua biografia lançada.

No dia 12/06/2019, no Instituto de Linguagem do campus de Cuiabá da UFMT, em evento organizado pela Pós-Graduação em Estudos de Linguagem (PPGEL), a vida de um homem necessário será lembrada no lançamento do livro intitulado “Um bispo contra todas as cercas: a vida e as causas de Pedro Casaldáliga”, escrito pela jornalista Ana Helena Tavares. Rememorar os caminhos e descaminhos de Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, nos coloca a certeza de que o ser humano, imperfeito, mas criativo, individual, mas coletivo, historicamente determinado, mas um ser da práxis, pode muito, pode sempre mais, pode lutar nas condições mais adversas e nas instituições mais difíceis.

Pedro é pedra, é padre, é poeta, é político e é povo. É o bispo das colisões linguísticas, políticas e ideológicas. Ousou mais que falar, viver, vivenciar o que se acredita. O bispo que reverberou uma verdade pujante, tão firme que foi capaz de se comunicar por todo o mundo e com todo mundo, falando com cristãos e ateus, com acadêmicos e analfabetos, com doutores das letras e doutores da terra, com o universo de todos aqueles que buscam uma vida com sentido.

Não é preciso comungar da cosmovisão teológica do Bispo, mas é fundamental perceber que sua história resguarda uma contra-hegemonia que nos falta na batalha das ideias da atual conjuntura. Unir o pessimismo da razão com o otimismo da vontade é algo que esse e tantos outros sujeitos que construíram com o povo uma resistência coletiva transcende os limites táticos e estratégicos do campo majoritário da esquerda das últimas décadas.

Se queremos enfrentar as duras batalhas pelos direitos das pessoas da classe trabalhadora precisaremos romper as cercas e os muros para se comunicar organicamente, para escutar e se fazer ouvir, para pensar coerência mesmo na contradição, para ter menos fé no além e ter mais convicção, como Pedro, de que se pode ir além.

terça-feira, 4 de junho de 2019

O Estádio é um lugar para as famílias? Que famílias?

P. Wescley M. Pinheiro 
Professor da UFMT
paulowescley@gmail.com 

É corriqueiro o discurso de que é preciso acabar com a violência nos estádios para que eles sejam ocupados pelas famílias. No entanto, quais famílias são essas? Que tipo de arranjo familiar tem condições de ir ao estádio? Nessa direção discursiva se escolhe um modelo específico de família, sendo ele idealizado, conservador e considerado como o normal, ou seja, o formato aceitável onde tudo que existe fora dele faz parte do problema. A forma como tem se constituído esse discurso e as ações promovidas se revelam como parte do processo de elitização do futebol

Assim, o discurso do direito das crianças no estádio sucumbe em falas de responsabilização individual, questões mercadológicas ou somente argumento para firmar políticas de segurança pública repressiva, caminhando longe de outras questões fundamentais. 

O exercício de desnaturalizar o estado de coisas em nosso cotidiano é desconfortável. Afinal, as coisas estão nos seus devidos lugares até momento que ousamos perceber que essa organização representa não-lugares de tantas outras coisas. O Estádio de futebol, espaço reproduzido como democrático, onde todos se vestem da mesma paixão e apagam divergências para unir as mesmas cores, sempre distanciou sujeitos historicamente oprimidos, estes, incluídos apenas sob condição de se fantasiarem de iguais, ainda que suas diferenças continuem como palco para desigualdade material e reprodução de preconceitos. 

O discurso familista vazio é apenas um argumento moralista para obscurecer o alavancamento do abismo social no esporte que, em vez de pensar a violência estrutural da sociedade e suas refrações no futebol, passa a ter a expressão imediata como problema central. Se não fosse assim, as medidas para se incluir as famílias no estádios estariam voltadas para a construção de uma cultura que absorvesse a diversidade dos arranjos familiares, que pensasse a estrutura das praças esportivas para a inclusão desses setores e que construísse possibilidades de ambientes menos hostis para mulheres e crianças. 

Afinal, não é somente a violência entre as torcidas que limita esse espaço. Ir ao estádio é uma saga: horário dos jogos, valores absurdos, amostra grátis da forma como a polícia age nas periferias e, por fim, toda uma estrutura física e de serviços que envolve a reprodução do patriarcado e do adultocentrismo. 

Por isso, nesse debate, a dificuldade de acessibilidade, a repressão policial, o preço dos ingressos, além de, obviamente, a reprodução machista de responsabilização das mulheres são elementos importantes a serem refletidos. Quantas mães deixam de ir ao estádio para ficar com as crianças em casa enquanto seus companheiros e/ou pais de seus/suas filhos/as estão nas arquibancadas exercendo seu direito de lazer? Muitos homens adoram idealizar a passagem para seus filhos (a flexão de gênero aqui não é mera conversão linguística) pelo seu clube, mas poucos estão dispostos a compartilhar o processo de cuidado efetivo no espaço público e privado.

A arquibancada quer mesmo acolher as crianças? Quem tem filhos/as sabe que sair com elas é um trampo: exige tempo, bagagem, dinheiro e paciência dos adultos, seja dos responsáveis seja de quem está em volta. Quantas arenas/estádios tem "banheiros família"? Quantos banheiros têm trocadores de fralda, inclusive nos masculinos? Quantos clubes pensam, além da lei da gratuidade, ações de acolhimento e serviços durante os jogos para crianças de todas as idades? Quantas torcidas pensam em não tornar aquele lugar um espaço de aprendizado para os meninos serem machões e para as meninas serem objetificadas? 

Se o discurso de incluir as crianças nos estádios quiser se estabelecer na realidade será necessário pensar a questão da paternidade responsável e crítica, num ambiente que ainda é hegemonicamente masculino, será fundamental pensar como incluir as mulheres mães (inclusive parando de romantizar agressões verbais de cunho machista e lgbtfóbico como provocações aceitáveis), além de exercer a tolerância com a diversidade, afinal, famílias existem de todas cores, credos, formas e amores e não somente aquela do comercial de margarina. 

Assim, há um longo caminho a ser percorrido para esse seja um ambiente de todas as pessoas, para que as crianças possam exercer seu direito e possam existir nesses lugares sem riscos diversos, com menos custo e com mais potencialidade lúdica, pedagógica, de entretenimento e cidadania, para cultivar uma paixão tão bonita que, por vezes, atravessa as gerações familiares. 

Até lá, nós torcedores/as precisaremos assumir a responsabilidade paterna, desnaturalizar a responsabilização exclusiva da mulher, além de desenvolver ações coletivas de redes de solidariedade com as famílias que vão ao estádio, possibilitando cuidado e proteção aos/às pequenos/as torcedores/as que aprenderão a curtir o futebol sem precisar excluir e violentar o outro.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

AS RUAS E AS ARQUIBANCADAS EM TEMPOS REACIONÁRIOS: FUTEBOL, DIVERSIDADE E AS TORCIDAS ANTIFASCISTAS


P. Wescley M. Pinheiro
Professor da UFMT
paulowescley@gmail.com

Numa conjuntura onde muita gente trata política como futebol, futebol como religião e religião como política a falsa premissa que não se pode discutir sobre esses três assuntos é tão falsa como sempre foi. Com a máxima de que “só é ideológico aquilo que se contrapõem à ordem vigente” o discurso travestido do mito da neutralidade reproduz no esporte a perpetuação de espaços antidemocráticos. Assim, o silenciamento diante de tantas questões que fazem parte da produção e reprodução da cultura e dos valores do nosso povo tem sido uma forma de obscurecer contradições, romantizar desigualdades e vilipendiar possibilidades de diálogo.
    Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Nelson Rodrigues, afirmava que “em futebol, o pior cego é o que vê só a bola”. O antropólogo Roberto da Matta (1982) afirmou também que esse esporte é uma espécie de drama da vida social onde se pode descortinar aspectos culturais e sociais da sociedade brasileira. O sociólogo Maurício Murad (1996) superou o entendimento do futebol como mero lazer fortuito, colocando como “simbologia e metalinguagem, e como tal, revelador das culturas das coletividades e revelador expressivo das condições humanas”.
Precisamos pensar que o futebol não é um mero reflexo da sociedade, mas sim de um espaço de materialização cotidiana daquilo que estrutura nossa sociabilidade e, assim sendo, mais que um espelhamento, resguarda limites, mas também possibilidades, lócus de reproduções, mas também de ações pedagógicas dentro de uma perspectiva emancipatória, vivências em diferentes medidas, forças e leituras sobre a realidade que se atravessam diante dos principais temas que constituem a ordem do dia da sociedade brasileira.
Observando o futebol e tudo que está no seu entorno mergulhamos numa história de fundação eurocêntrica e lógica excludente até o processo de popularização e posterior massificação. Percebemos o racismo, dentro e fora do campo, como algo construído historicamente, o apagamento das mulheres em todos os setores, as reproduções machistas e lgbtfóbicas como condição permanente, entre tantas outras questões.
Se isso tudo é fato, é preciso destacar também que, nesse mesmo lugar,  diversos movimentos, manifestações e fatos históricos importantes e representativos de processos de resistência, de construção coletiva, de denúncia de violência e desmandos políticos e de luta contra preconceitos se apresentaram pertinentes.

O chute no preconceito da pátria de chuteiras

Na conjuntura de fortalecimento da lógica mercadológica em todos os espaços da vida, da intolerância e do fatalismo histórico tecer reflexões e construir ações profundas sobre os alicerces de outra cultura política é condição para resistir à barbárie.
Se há um crescimento do fundamentalismo religioso apontando para posições políticas autoritárias é mister que tenhamos processos de visibilidade de setores religiosos progressistas, democráticos e defensores da diversidade. Se a indústria cultural rebaixa a cultura periférica em produtos que só reproduzem o consumismo, o individualismo e o hedonismo, absorvendo e rebaixando os discursos de representatividade, é fundamental que se fortaleçam meios de fazer crescer os artistas e as produções que perseveram no protagonismo com a história de seu povo, buscando organicidade e posições coletivas comprometidas.
Se a política formal é majoritariamente construída pelo oportunismo e fisiologismo, é crucial que construamos coletivos que se espraiam longe da dependência do pragmatismo eleitoral, saíndo da busca de atalhos, afastando-se das novidades estéreis e também do tradicionalismo torpe. Nessa mesma direção, se o futebol foi majoritariamente ocupado pelos setores que reproduzem e defendem o processo de exploração e opressão é urgente que corroboremos iniciativas que partem para o contra-ataque disso.
Quando se fala de futebol e política todos os lados políticos ficam de orelha em pé. Os setores de direita costumam reproduzir que são coisas incompatíveis, ao mesmo tempo que elegem seus cartolas como deputados e senadores, realizam eventos nos clubes para defender pautas políticas e continuam a perseverar culturas violentas e marginalizadoras de diversos setores socialmente discriminados. No apogeu mercadológico e de ascensão ultra-liberal a defesa de que é preciso “não polemizar” para não prejudicar o clube também aparece como desculpa, ou seja, a versão esportiva de “quem lacra não lucra”.
Sabemos que esse argumento econômico é facilmente refutado e que historicamente os clubes e empresas que se anteciparam em construir posições liberais no campo dos direitos humanos sempre tiveram sua história exaltada. Além disso, os processos históricos transformam consciências individuais e percepções coletivas demonstrando que esse processo é muito mais complexo do que se estabelece no discurso antipático do não-debate.
Vejamos como o Vasco da Gama (RJ) se orgulha de ser o primeiro clube que colocou um jogador negro oficialmente em campo, mesmo que tenha enfrentado, na época, a cultura elitista, racista e proibicionista. Vejamos como a torcida do Flamengo (RJ) transformou a ideia do “Urubu” em símbolo e não em ofensa racial como costumeiramente se impôs. Pensemos nos diversos clubes mundo afora  que saem na frente no campo mercadológico diante as possibilidades de marketing e formação de plateia para além do modelo arcaico do futebol.
Se essa argumentação é frágil é preciso frisar que a mera demarcação de posição com interesse no mercado é também repleta de frigidez, sendo necessário atitudes reais que desenvolvam mudanças efetivas e enfrentam as incoerências dentro dessa sociedade. É nesse sentido que o afastamento do pensamento de esquerda na arquibancada e nos bastidores se expressa como um problema, pois perde a oportunidade de desenvolver a batalha das ideias num campo fértil de possibilidades, não somente ocupando um espaço, mas construindo, aprendendo e expandido atores políticos.
Sem observar essas frestas de contradição, parte dos movimentos de esquerda, historicamente assumiram a máxima de "ópio do povo", repetida, corriqueiramente, de forma rebaixada até mesmo com relação à frase original de Marx sobre a religião que, analisada em sua completude, demonstra o caráter contraditório desses complexo, afirmando "o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma".
Assim, saindo de uma visão mecanicista e rasa sobre a formação da superestrutura é preciso analisar os espaços de cultura e construção de valores em sua potência contraditória, percebendo os sujeitos como seres da práxis e suas manifestações individuais e coletivas como expressões dos antagonismos sociais vigentes.
A compreensão que limita o futebol como alienação das massas é rasa. Tal e qual todos os espaços de sociabilidade esse é só mais um que expressa as questões fundamentais de um dado tempo histórico. Quando não há organização, interesse e não se planta nas brechas das contradições sociais um discurso emancipatório os espaços são ocupados apenas pela manutenção do status quo.
Quando há um avanço substancial de valores conservadores na sociedade não é chocante que a maioria dos atletas profissionais de destaque fiquem em silêncio ou se posicionem contra os direitos dos oprimidos e explorados, mesmo que boa parte deles venham desses setores e tenham ascendido socialmente pelo esporte. Quando não há uma política de esporte que não se reduz ao aspecto competitivo e salta para questões mais amplas à manutenção da ideologia vigente se expressa também nas consciências individuais de atletas, dirigentes e torcedores.
    Se nos espaços de formação de atletas e do processo de trabalho o futebol apresenta suas contradições, a arquibancada também vira arquétipo dos processos da sociabilidade constituída por cisões sociais importantes. A claque reverbera e potencializa as disputadas inerentes da sociedade, reproduz e retroalimenta valores, expressa as manifestações da questão social, encobre coisas, absorve algumas, revela tantas outras.
    Na hipertrofia da elitização do futebol os estádios se embranqueceram, tornaram-se cada dia mais distantes dos marcos da torcida e mais próximos das marcas televisivas. Essa constatação, no entanto, não é nada saudosista. O ontem e o hoje demarcam a naturalização de práticas preconceituosas, reprodutoras de machismo, racismo e lgbtfobia como modus operandi do ser torcedor. O cerne da questão está em potencializar aqueles/as que buscam, nesse mesmo espaço, ir no caminho inverso.
    Da famosa Democracia Corinthiana, emblemática na luta pela redemocratização do país nos anos 1980, até o fortalecimento de vários coletivos antifascistas, torcidas organizadas LGBT´s e ações sociais com as tradicionais torcidas organizadas o processo político cotidiano nos oferece oportunidade de formação de consciências, de aprendizado sobre educação popular, de reconhecimento de problemas importantes na formação de base e dos desafios que exigem paciência histórica, capacidade de diálogo, criatividade e a habilidade de endurecer sem perder a ternura.
    Realizar debates sobre preconceitos e opressões ou mesmo sobre política e outros temas espinhosos não é uma tarefa fácil em lugar nenhum, no entanto, é incomparavelmente mais desafiador quando não estamos lidando com o ambiente universitário, com a militância dos movimentos sociais e partidos de esquerda e quando se enfrenta a realidade de frente, partindo do dia-dia dos sujeitos, mergulhando em nossos afetos, em nossos lugares, desmistificando as impossibilidades deles, descortinando a zona de conforto dos privilégios e a zona de desconforto das violências.
O distanciamento daqueles que se dizem de esquerda da cultura popular e do cotidiano dos sujeitos da classe trabalhadora enfraqueceu a leitura emancipatória na batalha das ideias. Isso ocorreu por diversos motivos que perpassam desde o processo de institucionalização e protagonismo da estratégia centrada na política formal, dos setores tradicionalmente vinculados aos movimentos populares, passando ainda pelo encastelamento acadêmico, pela vulgarização da teoria crítica, pela abstração pós-moderna e também por certo vício ilusório da atualidade com a participação virtual.
Em tempos de obscurantismo, as ações antifascistas, dentro e fora de campo, se expressam nas disputas nas instituições de massa que são os clubes de futebol e, principalmente, nas torcidas organizadas que afirmam a democracia, a diversidade e os direitos dos/das torcedores/as. Essas ações são exercício de cidadania, de expressar a coragem de falar sobre temas invisibilizados, de tocar em feridas e quebrar tabus em uma sociedade de que fortalece o constrangimento contra quem quer dialogar sobre o direito à diferença.
Por isso, esse processo é também um exercício pedagógico que demonstra o grau de conservadorismo da sociedade, o quanto os processos de espraiamento dos aparelhos ideológicos do reacionarismo conseguiu enraizar desvalores em nossa população e como as bolhas virtuais, políticas e acadêmicas precisam enfrentar seus limites e buscar as pessoas reais, com seus limites de consciência e suas reproduções das opressões.
As ações afirmativas nos clubes de futebol, as atividades coletivas com as torcidas, os debates políticos, as polêmicas suscitadas, são questões que evidenciam a capacidade de voltar os olhos para a formação das pessoas naquilo que faz sentido para elas. Mais que somente demarcações políticas, performances e bandeiras o desenvolvimento pedagógico e a batalha das ideias na realidade se apresenta como tarefa fundamental.
    No atual momento histórico essas ações cumprem o seu papel civilizatório, concretizam leituras da realidade a partir da vida concreta, suspendem o cotidiano, atacam o senso comum, dão oportunidade de muitos conhecerem bandeiras de luta, provocam reações, tensionam pactos invisíveis e consciências amortecidas além de, obviamente, evidenciarem o caráter de classe e o incômodo dos poderosos da sociedade com o exercício de participação popular.
    Nesse sentido, o enraizamento cultural e a identidade afetiva do espaço do futebol  possibilita que cresça a percepção da capacidade de fortalecermos uma consciência de que podemos agir na realidade. Afinal, no futebol há uma construção simbólica de que a torcida participa do jogo: jogar em casa, ter o estádio cheio, ouvir o grito motivando faz diferença no certame. O exercício de ação coletiva e a pulsão simbólica de que o sujeito fora do campo não é um mero espectador, mas um protagonista que constrói sua paixão  afirma possibilidades de sairmos do lugar de apassivamento contra aqueles que atacam a condição de vida e trabalho dos menos favorecidos socialmente.
   
“Paz entre as torcidas, guerra entre as classes”

Há anos a Resistência Coral (Ferroviário-CE) estampou nos estádios cearenses a célebre frase “Paz entre as torcidas, guerra entre as classes” apresentando à massa de pessoas que ali torciam que, embora haja uma disputa no campo, a derrota principal se expressa na violência urbana e policial, que se apresenta no extermínio da juventude negra e que, no futebol, tem sua particularidade nas brigas entre as torcidas e na repressão da polícia. A goleada real está nos gritos lgbtfóbicos e racistas que nada mais são do que gols contra diante de pessoas que tem sua vida diminuída, suas práticas marginalizadas, seus afetos atacados.
    Nos anos 2010, páginas nas redes sociais e coletivos que afirmavam o direito LGBT e de mulheres nessa área foram cobertos de ameaças e repúdio. Esse movimento retomou iniciativas que existiram desde a década de 1970, conforme afirmou o pesquisador Maurício Rodrigues, com grupos como a FlaGay (Flamengo-RJ) e ColiGay (Grêmio-RJ). Nessa retomada grupos como Gaivotas Fiéis (Corinthians-SP), Galo Queer (Atlético-MG), Cruzeiro Maria (Cruzeiro-MG), Bambi Tricolor (SPFC-SP), Timbu Queer (Náutico-PE), Vitória Livre (Vitória-BA), Queerlorado (Internacional-RS), Palmeiras Livre (Palmeiras-SP)  e tantas outras enfrentaram as críticas e  as ameaças, formas próprias do patriarcado, do machismo e da misoginia, afinal, para a cultura hegemônica, o homossexual é sempre o adversário, denotando como a orientação sexual e a identidade de gênero não-hegemônicas são vistas como ofensivas.
Para os mesmos setores a figura da mulher ou é a torcedora objetificada como musa, ou a mãe do juiz a ser xingada. No debate das opressões a construção e desconstrução dos valores é um processo constante. Em mais um ano de copa do mundo de futebol feminino vemos o processo de luta contínua por visibilidade, estruturação e reconhecimento entrando em choque com o machismo, com a lesbofobia, com a desconfiança própria do machismo. Essa disputa é contínua, avança em alguns momentos, retrocede em outros. Quanto mais é visível o sucesso das atletas, quanto mais se pauta a modalidade, quanto mais conhecemos aquelas mulheres mais elas são reconhecidas, tidas como exemplos e apresentam para a sociedade a particularidade e os desafios impostos do ser mulher em qualquer espaço do mercado de trabalho.
    Observando tudo isso o ataque preciso não é somente ao “futebol moderno”, mas sim aos processos de absorção que a cultura popular promoveu no silenciamento de setores oprimidos. Para isso é preciso articular um debate sobre a estrutura social que vivemos, a particularidade do futebol, o progressivo distanciamento das classes populares do esporte, além de atividades mais elaboradas que possibilite uma aproximação didática com essas defesas e não somente um disputismo estéril diante daqueles sujeitos da classe trabalhadora quem também reproduzem as opressões.
    Nesse sentido, se tem crescido o conservadorismo na sociedade é também verdade que, nos últimos anos, se intensificou o processo de formação popular e disputa de valores, iniciativas que haviam se enfraquecido no futebol e deixado para os conservadores todo o processo de fortalecimento de sua lógica. Atividades que, por exemplo, a Gaviões da Fiel (Corinthians-SP) e tantas outras torcidas realizavam no passado voltaram a ter visibilidade, encarando a função social do esporte, a construção educativa coletiva, os espaços de lazer e a identidade da torcida como possibilidade de ser solidário tem retomado a condição de debates sobre gênero, raça, sexualidade, violência mesmo com o estranhamento de muitos torcedores.
    Nesse sentido, a Resistência Tricolor (Fortaleza-CE) vem construindo uma experiência autônoma, democrática e explicitamente anti-conservadora, que apresenta preocupação com a laicidade do futebol, com o combate das opressões, a reprodução de preconceitos, com a não instrumetalização político-partidária dos clubes e a função social do esporte.
    O coletivo se constrói de modo horizontal, progressivamente ganha corpo e se revela lócus para juntar pessoas para debater temas, exercitar convergências e divergências, aprofundar afetos e cultivar, diante da paixão pelo Fortaleza Esporte Clube, os aspectos socialmente positivos diante da realidade que nos cerca. Os processos políticos que se fortalecem nesse processo aprofundam a maturidade sobre as disputas nos bastidores do futebol, possibilitam autocrítica sobre as ações na arquibancada e afirmam potencialidades desconhecidas no esporte.
    Mais que faixas no estádio, os tais grupos que potencializam esses debates vão construindo possibilidades de incluir na arquibancada as pessoas oprimidas que antes não viam condições de vivenciar a paixão pelo clube, devido aos ataques à sua condição e a potencialização dos preconceitos. Assim, a afirmação dos direitos da população, a caracterização desse esporte e desse espaço como genuinamente do povo, apresenta possibilidades de fortalecimento de bandeiras que defendem os direitos humanos e sociais dentro e fora do futebol.
    Nesse sentido, mais que uma afirmação política, os processos vão motivando outros grupos, trazendo a realização de ações efetivas de aproveitamento da identidade futebolística dos/as torcedores/as para melhoria das condições dos mesmos. Um bom exemplo é o projeto de Aulões para o ENEM que a Resistência Tricolor tem realizado em parceria com a TUF (Fortaleza-CE), maior torcida organizada do clube. Nessa ação se aproveita a unidade de diversos profissionais da educação em torno do amor pelo tricolor para realizar possibilidades mais amplas e construir pontes entre indivíduos que antes somente tinham em comum a paixão clubística.
    Tal exemplo demonstra que não se trata de afirmar uma tensão dentro da torcida, provocar pessoas e coletivos, mas agir no sentido democrático, inclusivo e contra-hegemônico, numa sociedade que afirma cada vez mais as desigualdades. Assim, quando avança a torcida, avança também o clube e, por tantas ações de diversos outros grupos, dirigentes e torcedores, nos últimos anos, o Fortaleza E.C.  também cresceu em participação democrática e ampliou posicionamentos progressistas, ainda que haja necessidade de avançar e que isso demonstre os desafios internos nesse processo.
    Dentro e fora desses coletivos, esses debates vão crescendo e catalisando novas possibilidades, como o crescimento de grupo de mulheres que se unem para ir aos jogos juntas e enfrentar o assédio, de pessoas LGBT que buscam estratégias de auto-cuidado, de deficientes físicos e outros setores com acessibilidade dificultada, etc.
Essas iniciativas contam com desafios importantes e que podem ampliar ou retroagir sua capacidade de interlocução. Por serem majoritariamente experiências novas, por resguardar processos fluidos de absorção de novos quadros e por ter uma diversidade de posições e diferentes niveis de maturidade política entre os seus membros e simpatizantes. A capacidade formativa que não cair no mero voluntarismo, na construção espontaneísta e no pragmatismo diante dos resultados do seu clube no campo serão os grupos e ações mais crescerão e terão condições de interferir na necessária e urgente formação de processos políticos emancipatórios na sociedade brasileira.
    Entre tantos exemplos, talvez o Esporte Clube Bahia (BA) tem sido o maior deles em ações institucionais que fortalecem a cidadania. O clube vem afirmando em seus meios de comunicação oficiais, nos produtos do clube e na construção política interna uma série de questões que explicitam o direito à diversidade, o combate à violência, a afirmação do povo negro, das mulheres, da população LGBT e da popularização da arquibancada. Essas ações, ainda dentro de um futebol que é negócio e disputa, ao contrário do que muitos pensam, não desvaloriza a marca do clube e ainda eleva o patamar histórico da instituição.
    Num tempo histórico marcado pela perseguição de quem busca a afirmação de direitos uma instituição tão cara aos sujeitos das classes populares pode revelar importantes possibilidades no enfrentamento de uma lógica que se espalha na sociedade. As posições oficiais apresentam à todos os setores a necessidade de pensar sobre os temas em questão.
    Não por coincidência um coletivo de torcedores baianos vem construindo uma experiência contra-hegemônica plural de destaque nacional nesses debates e demonstrando que esse processo democrático é retroalimentado entre torcida e clube, não como tutela e imposição, mas como construção coletiva. A Frente Esquadrão Popular (Bahia-BA) tem conseguido de maneira autônoma ampliar debates, realizar ações, fortalecer posições de uma forma bastante interessante, articulando a tradição popular do clube com temáticas costumeiramente vilipendiadas.
    As atividades junto com jornalistas renomados sobre política e futebol, a parceria acadêmica e política com o Observatório de discriminação racial, as palestras e debates, os posicionamentos virtuais e as articulações com movimentos sociais, populares e setores universitários demonstram o caminho a ser seguido por todos os coletivos e as possibilidades de pensarmos esses processos em uma rede nacional de todas as torcidas.
    Assim, por todo o Brasil as ações populares se alimentam, algumas tímidas, outras mais estruturadas. Mais que potencializar a espetacularização do mercado e da violência pela mídia ou demarcar posição política é preciso potencializar, conhecer e reverberar as ações dentro do futebol que buscam resistir.
    O processo de ataques aos direitos sociais, o desmonte das políticas sociais e relativização das liberdades democráticas precisa encontrar resistência nas ruas de forma ativa e criativa, absorvendo os instrumentos históricos da classe trabalhadora, mas buscando também chegar aos espaços culturais onde historicamente sempre foi lugar de suposto pensamento único. Dirigentes ricos, políticos tradicionais e novos empresários utilizaram e continuam utilizando os clubes para afirmar um projeto de sociedade que não realiza nada de positivo para a maioria dos/das torcedores/as.
    No atual ambiente de instabilidade, a naturalização da forma política baseada numa reprodução mercantil e no distanciamento da população dos espaços representativos, se aliaram ao resultado de décadas sem espaços de formação política para a classe trabalhadora, à descrença nos instrumentos de mobilização diante dos processos de cooptação de inúmeros sindicatos, movimentos sociais e outros setores e formalizam uma cultura de ódio à democracia e a política do ódio como ferramenta.
    Diante desse quadro, os desafios da disputa de hegemonia em terra arrasada se realizam na tarefa de não repetir os erros interpostos no rebaixamento de horizonte emancipatório e nem constituir uma análise meramente abstrata da conjuntura. Não se conquista corações e mentes partindo de uma condição ideal, mas colocando a bola no chão e compreendendo o mundo como ele é. Há que se buscar o chão da realidade, as frestas do cotidiano e impedir a degeneração do contra-hegemônico, buscando as mediações para seu enraizamento a partir de pautas concretas e da realidade cotidiana da classe trabalhadora.
    A bola está no meio-campo e nesse jogo não há empate. Ou os setores antifascistas se expressam, se articulam e disputam a sociedade ou obscurantismo continuará goleando, dentro e fora do futebol, tomando nossos direitos, nos matando e lucrando com nossa alegria e com nossas dores. Grita, torcida, grita!