Wescley Pinheiro
paulowescley@gmail.com
O assunto “misto” mexe com muita gente: com aqueles/as que torcem por dois ou mais clubes, com aqueles que dizem que isso é impossível ou vergonhoso, com aqueles que dizem que tem as maiores torcidas, seja do Brasil, seja nos estados, mas que, desconsiderando essa parcela, teriam uma quebra substancial em seus quadros quantitativos.
Não há uma definição exata do que é ser torcedor. Esse ser e estar “torcedor” tem a ver com identidade e, pelo menos até hoje, ainda é algo auto-declaratório nesse país, não cabendo ao outro dizer se você é ou não bastando, portanto, você querer. A questão é que nossos gostos individuais também são formados a partir de questões historicamente determinadas e eles representam e reproduzem elementos particulares nesses processos.
Dentro de um esporte marcado pelo negócio, o contorno do que faz um torcedor “de verdade” tem muito a ver com o consumo, seja ele direto, com a contribuição nas receitas oriundas da venda de ingressos e produtos oficiais, seja no consumo de informação e engajamento, com o acompanhamento na mídia, gerando fortalecimento da marca que, em última instância, atrai patrocinadores, amplia a barganha nas cifras financeiras das transmissões televisivas e alarga a força simbólica da instituição clubística diante de sua eventual magnitude quantitativa.
Dito isso, há um problema na equação “misto” dentro da nação continental: os torcedores “não praticantes”. A expressão utilizada aqui é aquela mesma quando falamos de religião e não por acaso. Tal e qual na questão do sagrado, o Brasil - nação forjada na cruz e na espada - foi colonizado pela cultura judaico-cristã eurocêntrica e desenvolvida na hegemonia da Igreja Católica tendo uma aproximação quase simbiótica com o Estado em muitos momentos de nossa história. Como não poderia deixar de ser nos acostumamos a afirmamos uma religião, mesmo que não a sigamos em suas minúcias fundamentais, ou seja, religiosamente.
O futebol segue a mesma (não) prática, visto que aprendemos que é bom ter um time de futebol e que esse time de futebol precisa ser vitorioso. O padrão da religiosidade futebolística resguarda mais fluidez do que parece. A construção de torcidas que são vista como "nações" se processam dentro dessa lógica. Por isso aprendemos a torcer a partir da hegemonia que formou o país. Ela é inimiga da diferença, tem ojeriza à isonomia e instrumentaliza a falta de diversidade. Dessa forma, a revolta diante do “misto” é uma revolta contra-hegemônica, ainda que ela se expresse, por vezes, de forma equivocada e reproduzindo a própria hegemonia.
A polêmica que envolve os nordestinos que torcem para clubes da região sudeste é complexa. E sabemos que tudo que é complexo se torna ainda mais quando se trata de futebol e seu coquetel tresloucado de paixões e supostas verdades absolutas. Assim, quando as diversas posições são colocadas de forma rasa e apressada parece que ninguém tem razão.
É verdade que não se pode equiparar a revolta contra os mistos com o preconceito regional construído por parcelas de pessoas do Sudeste diante do povo nordestino. Esse argumento aparente apenas confunde a reação do oprimido diante da estrutura opressora. Mesmo que se possa discordar da forma como se tem colocado o dedo nessa ferida é preciso que isso seja feito, obviamente, levando em conta toda a complexidade que envolve tal ato para que nos revoltemos contra quem produz a desigualdade e não contra quem a manifesta.
É chover no molhado falar sobre que o processo de hegemonia do sul-sudeste no futebol apenas acompanha o desenvolvimento desigual e combinado da constituição socioeconômica do país, forjada numa reprodução do modelo colonial/imperialista, assumindo sua tradição patriarcal, escravocrata e patrimonialista e que, não por acaso, concentra seu desenvolvimento naquela região, construindo sua modernização numa inclusão precarizada e marginalizadora das populações descendentes dos povos originários, dos povos escravizados e da classe trabalhadora nordestina.
É verdade que não se pode equiparar a revolta contra os mistos com o preconceito regional construído por parcelas de pessoas do Sudeste diante do povo nordestino. Esse argumento aparente apenas confunde a reação do oprimido diante da estrutura opressora. Mesmo que se possa discordar da forma como se tem colocado o dedo nessa ferida é preciso que isso seja feito, obviamente, levando em conta toda a complexidade que envolve tal ato para que nos revoltemos contra quem produz a desigualdade e não contra quem a manifesta.
É chover no molhado falar sobre que o processo de hegemonia do sul-sudeste no futebol apenas acompanha o desenvolvimento desigual e combinado da constituição socioeconômica do país, forjada numa reprodução do modelo colonial/imperialista, assumindo sua tradição patriarcal, escravocrata e patrimonialista e que, não por acaso, concentra seu desenvolvimento naquela região, construindo sua modernização numa inclusão precarizada e marginalizadora das populações descendentes dos povos originários, dos povos escravizados e da classe trabalhadora nordestina.
Esse processo que privilegiou a contratação formal oriunda do fenômeno migratório internacional, a partir do estrangulamento do exército industrial de reserva europeu na passagem dos séculos XIX para o século XX e que amplia, entre outras coisas, o gosto pelo futebol, fincou para essas outras populações supracitadas a esfera marginal: a tarefa do sobretrabalho informal, as práticas análogas à escravidão, o rebaixamento, a criminalização e a patologização de suas culturas e práticas, além da reprodução cultural de superioridade regional sul-sudestina, constituída nos ombros, no suor e no sangue de migrantes nacionais que estruturaram a possibilidade da capenga industrialização brasileira, da urbanização desordenada e da perpetuação do latifúndio no tradicional metamorfoseado “Brasil moderno”.
A política que solidifica a indústria da seca, que naturaliza desigualdades e reduz possibilidades dos “sobrantes úteis” desse país continental também vem acompanhada de hegemonia cultural que condiciona o sotaque correto, a música correta, a arte correta, os clubes corretos para torcer. O Brasil oficial é resultado da miscelânea das elites que passaram pelo império, pela República Café-com-leite, pelo Estado Novo, pela ditadura civil-militar de 1964 e se perpetua até hoje calando a diversidade em todos os espaços.
A Rádio Nacional e suas similares, posteriormente, a Rede Globo de Televisão e suas similares concentraram a formação da suposta identidade nacional a partir dos interesses de quem paga o seu microfone e a sua lente. O futebol faz parte desse processo. São décadas ouvindo e vendo vitórias e derrotas dos clubes do eixo. São anos e anos aprendendo que torcer pelo rádio e pela televisão é a forma correta. São dezenas de anos invisibilizando a construção historicamente determinada de desigualdade no país, inclusive entre os clubes de futebol.
Nesse sentido, a frase “não é apenas futebol” nunca foi tão verdadeira. Ter a consciência disso, no entanto, não faz quem cresceu desde a infância nutrindo sentimento por um clube do Rio de Janeiro, um clube de São Paulo e um clube do seu estado, diminuir imediatamente sua paixão. O afeto não se desconstrói apenas pela racionalidade abstrata. Nesse fenômeno é preciso construir uma outra hegemonia, é fundamental desenvolver um processo contínuo, demorado e estratégico diante de um império naturalizado, mistificado e duramente construído.
Por isso, quer você queira ou não, para a construção da valorização de uma cultura regional o misto é um avanço histórico, pois demonstra um crescimento dos clubes da região nordeste, já que, obviamente, existirem não mais apenas torcedores dos clubes do sudeste é um sinal de melhoria.
Além disso, esse tipo de torcedor/a abre um leque de possibilidades de ser conquistado/a, pois passando a acompanhar o futebol regional, pode ir ao estádio, pode aprofundar sua identidade com o clube local, seja porque percebe a beleza da torcida, seja por que passa a vivenciar com mais proximidade o tamanho da desigualdade e injustiça que é promovida pela estrutura futebolística sudestocêntrica.
Nesse processo, esse sujeito passa a perceber a mídia, a arbitragem enviesada e, inclusive, o preconceito e a discriminação com que parte da torcida desses clubes hegemônicos tem com o povo nordestino, bastando ir aos jogos em seus estados de origem contra nossos times e compreender como somos tratados e qual a imagem que se tem do nosso povo. Uma ida ao Maracanã ou ao Pacaembu para realizar seu sonho de televisão pode se transformar numa revoada de nomes pejorativos… um “paraíba” pra cá, um “baiano” pra lá, um “passa fome” ou somente o velho “cabeça chata”.
Eu já fui um misto na infância e depois eu também já fui um dos que acreditava que chamar a torcida nordestina pelos clubes do eixo de “Vergonha do Nordeste” era uma forma aceitável. Compreendo que a revolta e a raiva fazem também parte de um fenômeno reativo diante dos preconceitos, da discriminação, da xenofobia e de toda essa desigualdade construída que falamos acima. No entanto, hoje penso que tal atitude não somente não colabora para o desenvolvimento de uma outra cultura futebolística como caminha num terreno perigoso do suposto combate da hegemonia quanto, na verdade, atinge apenas o sujeito que a reproduz e é, em suma, alguém atingido pela mesma.
Não me parece nada inteligente nordestinos hostilizando nordestinos. Muito menos parece ser coerente combater intolerância e discriminação contra pessoas que também sofrem, ainda que elas se identifiquem com sujeitos que reproduzam tais atitudes. Por fim, não é taticamente producente afastar pessoas que gostam de futebol, que estão territorialmente perto e que poderiam paulatinamente se aproximar do clube que torcemos, mas que, por capricho, ou por tentativa de universalização da sua forma particular de torcer, haja uma necessária repulsa ao indivíduo que também pode está financiando seu clube, incentivando os atletas na arquibancada e criando um processo de identificação.
Racionalmente falando, quanto mais pessoas se encantando com a torcida do meu clube, criando simpatia, se aproximando, acompanhando as ações, comprando produtos e valorizando a marca, melhor para meu time, seja essa outra pessoa um torcedor exclusivo ou não. No futebol-negócio ter mais condições financeiras é ter mais possibilidades de atingir mais gente, de gerar mais públicos e de fidelizar mais pessoas. O misto de hoje é um potencial não misto amanhã .
Apaixonadamente falando (e politicamente pensando diante da questão histórica sobre o Nordeste) é preciso compreender que não se acaba com os mistos gritando contra nordestinos. É preciso conquistá-los, sobretudo, é preciso conquistar as novas gerações. Acabar com os mistos é tornar os clubes nordestinos cada dia mais visíveis. É gerar conteúdo próprio, mídias alternativas, é pensar formas de constituição de uma nova cultura e, sobretudo, é fazer clubes do tamanho da paixão nossas torcidas.
Quer acabar com os mistos? Isso acontecerá com vitórias dentro de campo, com política de formação de plateia, com o fortalecimento do clube no interior do estado, com o desenvolvimento de ações para além do futebol que façam do clube uma experiência cotidiana do povo nordestino.
Quer acabar com os mistos? É preciso se posicionar socialmente, que o clube tenha responsabilidade institucional diante de questões que atingem seu povo, construir ações estruturadas de popularização do estádio, dos produtos e da vivência do esporte.
Se o nordestino antes de tudo é um forte, nossa fortaleza está em resistir, existir de forma concreta, criativa, pujante, leal.
Encantemos nossos conterrâneos e mostremos que vencendo ou não em campo eles estão perdendo a verdadeira glória que é ficar ao lado de seu sotaque e de sua beleza na arquibancada. Se um misto estiver do outro lado da arquibancada assistirá de camarote o verdadeiro show do futebol brasileiro: a arma quente que é a felicidade da torcida nordestina por nossos clubes.
(aqui continuo o debate diante das acusações de preconceito e "xenofobia reversa")
(aqui continuo o debate diante das acusações de preconceito e "xenofobia reversa")
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