quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O preconceito regional no futebol e a alegoria de Brecht: ainda sobre a polêmica dos mistos

Não é nada nova a atuação que se concentra em chamar de preconceito a reação diante da estrutura desigual que forma os privilégios naturalizados, jogando para as parcelas oprimidas a responsabilidade da lógica violenta que se reproduz no cotidiano e que, quando é criticada, põe em xeque o ethos estabelecido: "heterofobia, racismo reverso, femismo" são expressões corriqueiras utilizadas no senso comum para colocar na mesma balança da intolerância a reprodução das opressões e a reação diante delas. 

Isso fica ainda mais evidente quando trazemos à baila questões das desigualdades regionais do Brasil e de toda a estrutura que determina preconceitos, normalizações e normatizações que impõem o sufocamento da diversidade cultural em detrimento de uma hegemonia que acompanha o poder historicamente estabelecido. 

Quando particularizamos o tema no futebol a coisa ainda é levada com argumentos pueris, mesmo por pessoas esclarecidas e que buscam dialogar com um tom minimamente progressista em outras questões. Não é difícil de compreender como as contradições não se tornam visíveis nem sobre o preconceito regional contra o Nordeste ou, se quiserem chamar, xenofobia interna, nem com relação ao processo de desenvolvimento desigual no futebol. 

Tradicionalmente os movimentos sociais que pautam as opressões, os partidos clássicos da esquerda ou as organizações sindicais pouco deram importância para a constituição estruturante que a produção de uma perpetuação da escassez no Nordeste, que possibilitou as condições para o fenômeno de uma migração interna no País e desenvolveu as possibilidades de uma exploração intensa da classe trabalhadora dessa região, estruturando a modernização brasileira junto das raízes escravocratas, patriarcais e da submissão ao imperialismo.

Sobre a articulação dessas questões, sua expressão no mundo do futebol e o aparecimento dos torcedores dos grandes clubes do país em todas regiões tratamos de modo panorâmico no texto “O TORCEDOR MISTO, O FUTEBOL E O NORDESTE: O QUE FAZER DIANTE DA HEGEMONIA?”. Tentaremos não nos repetir, nos concentrando aqui somente no quão reveladora pode ser a acusação de “xenofobia reversa” diante das ações - para mim problemáticas do ponto de vista estratégico - de valorização do torcedor do Fortaleza por parte do clube, na promoção da partida contra o Flamengo. 

As razões por não achar inteligente a forma como corriqueiramente tem se tratado o assunto “misto” também estão no texto supracitado, agora, quero tecer considerações sobre como a revolta diante dessas iniciativas são capciosas. O relativismo e a lógica presentista são as características mais relevantes diante do tema para os progressistas de plantão. 

Para os setores revoltosos não há história, não há nada além do futebol que estruture a hegemonia dos clubes de maiores torcidas do país: “Gigantes pela própria natureza”, o passado de glórias é meritocrático e o presente que se reproduz na desigualdade financeira e de tratamento na mídia é apenas resultado do seu sucesso histórico e direção do mercado.

Obviamente, para eles, tudo isso difere de modo radical do fenômeno que arregimenta ampliação da moda das torcidas por clubes europeus ou mesmo do pensamento diante de outros temas como a indústria cultural cinematográfica ou musical. Nas suas cabeças é diferente também de questões relevantes sobre os motivos da perpetuação dos sotaques sudestinos serem tidos como os oficiais do país ou mesmo sobre como reproduzimos a lógica do sub-emprego para os nordestinos migrantes. 

Nessas defesas a bandeira da "liberdade individual" também aparece à tona, tal e qual ocorre para os liberais contemporâneos, referendada de forma abstrata e abstraída das condições históricas que fizeram com que as coisas do presente estivessem como estão. Nessa direção, os incomodados entendem que a prateleira das escolhas atuais não foi edificada por nada desigual e criticá-la é ser um autoritário, alguém antidemocrático. 

No julgamento sudestino o passado é uma roupa que não serve mais, bastando que se respeite o que cada indivíduo quer fazer e escolher, pois pautar desigualdades históricas só eleva a intolerância, denunciar cisões estruturais apenas amplia a violência, demonstrar discriminação e posicionar diante da hegemonia é também uma forma de preconceito. Esse tipo de postura lembra alguma coisa? 

Nessa perspectiva, quem dividiu o país do futebol e o futebol do país não foi a estrutura desigual que condiciona os sujeitos para a manutenção do status quo, rebaixa as culturas periféricas do mapa do Brasil e amplia a desigualdade financeira, inclusive, dos clubes. Quem dividiu o país foi a retirada do sabor da pizza mista da cantina do Fortaleza Esporte Clube. 

A luta contra o preconceito e a busca por tolerância diante da escolha individual para quem torcer, tão visível nos últimos dias, é proporcional a invisibilidade diante da falta de indignação por todas as outras rodadas do campeonato brasileiro onde as torcidas gritam de forma pejorativa contra os nordestinos. 

É também inversa à indignação contra a falta de igualdade, equidade, isonomia e, sim, reparação histórica, diante da divisão das cotas televisivas para os clubes que disputam o mesmo campeonato. Como costuma falar o grande Gil Luiz Mendes, comandante da bancada do revolucionário podcast Baião de Dois, não há comunistas nas torcidas dos grandes clubes quando se fala em divisão das cotas de TV, nesse tema, todo mundo defende a meritocracia. A prática se repete nos estaduais na relação clubes da capital versus interior. 

Também não se percebe indignação semelhante sobre a minutagem dada dentro da “grande mídia nacional” para o futebol fora do circuito Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Aliás, quantos são os jornalistas nordestinos de relevância nacional? Quantas são as faculdades de comunicação social que ainda dizem para diminuir o “sotaque carregado” diante do apelo do mercado? Como são tratados os erros de arbitragens quando ocorrem para os chamados “times pequenos”? Que tal pensarmos também quantos são os treinadores nordestinos nos grandes clubes do país? E quantas vezes os clubes do RJ e SP se posicionaram diante das manifestações preconceituosas que os nordestinos sofrem em seus estados? Há microfones voltados paras as ofensas proferidas nas arquibancadas da parte de baixo do mapa do Brasil? Claro, tudo questão de meritocracia.  

Na indignação casual do dia 16 de outubro de 2019 a hashtag #ONordesteéFlamengo foi levantada por sua enorme torcida. É verdade, boa parte do Nordeste torce para o Flamengo, mas isso não é por acaso e nem é por razões somente circunscritas ao campo de jogo. No entanto, o Nordeste é bem mais, ele é o conjunto de clubes centenários que resistiram e sobreviveram ao boicote da CBF, da mídia, do mercado, do Estado. De clubes que não sucumbiram mesmo com as administrações amadoras e desastrosas em suas trajetórias, que vivem apesar das elites nacionais e regionais retrógradas, que persistem e teimam sem a visibilidade, o lobby e o dinheiro dos clubes gigantes.  Quando falamos de Nordeste e futebol ainda tratamos a região como um território cheio de apaixonados pelo esporte, mas de coadjuvantes pelo acaso ou por incompetência. Não é bem assim. Talvez estejamos cansados de assistir pela tela (e não se ver) ou "raramente" no estádio (e não ser visto).

É bastante curioso que grande parte da imprensa brasileira e dos torcedores dos clubes gigantes desse país continuem a repetir que é violento o rio que tudo arrasta, mas que sejam os mesmo que nunca recordam das margens que o oprimem. É um direito questionar a forma como se constituem as ações “antimisto”, mas questionar o seu mérito e conteúdo é uma profunda hipocrisia, somente compreensível para aqueles que estão tão mergulhados na hegemonia que não conseguem enxergar os privilégios historicamente construídos. 

Nenhum debate e iniciativa que potencialize a hostilidade e o desrespeito pode ser tolerada. O debate sobre os "torcedores mistos" é, portanto, complexo e não pode caminhar para ações que tentem combater a desigualdade estrutural reproduzindo a indignação em cima daqueles que apenas são produtos da mesma e que fazem parte da parcela do país que sofre com as cisões sociais que até hoje se aprofundam. O ponto da discussão precisa ser este. É fundamental que o futebol seja um lugar para descortinar as contradições, que possibilite reflexão e que amplie as possibilidades de combater todas as formas de opressão. 

Querem falar de combate ao preconceito? Falemos em sua totalidade e paremos de mistificar a grandeza sudestocêntrica como algo natural. Não sejamos condescendentes e, de repente, não mais que de repente, resolvamos querer tolerância somente quando convém.

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