sexta-feira, 8 de março de 2019

Quando o carnaval chegar


Wescley Pinheiro
paulowescley@gmail.com

Eu tenho tanta alegria adiada, abafada, quem dera gritar...” - C. Buarque

No país da contradição a carne que queima no sol é temperada pelo riso que esconde e pelo riso que desvenda. O gosto dessa carne é o gosto dessa festa, agridoce, multiforme, bela e trágica, triste e sorridente, assim como a vida, mas muito mais pujante no despejar voraz de quatro dias alegóricos. Um escritor latino-americano já havia descrito a festa que é o corpo!

A festa dos sonhos e dos desafios, das máscaras que assombram e que encantam, das pernas que dançam como numa luta contra o real. A festa da carne que desnuda o corpo e a alma, acalenta dramas e encobre desafios. A festa que grita contra os detratores, debocha daquilo estabelecido, desmancha no ar certezas.

Do lado de fora imberbes tentam compreender, alguns desmerecer, outros vilipendiar. Entre o elogio ufanista e acrítico de sempre, as críticas intelectualóides antipáticas e o elitismo pedante fantasiado de moralismo, passam sorrateiras as ondas da mais bela (e terrível) contradição.

As onomatopeias brigam e beijam com os mais belos versos. As figuras de linguagens mais rasas disputam e se curvam ao lirismo feroz, os acordes mais pueris bailam e se abraçam aos arranjos sofisticados. As melhores e piores músicas do mundo foram feitas para/no carnaval.

Quem só conhece o lado ruim, ou o lado bom, ou o lado de fora, conhece pouco. É a celebração do absurdo, da reprodução de desvalores e da subversão deles. Não é ditadura da alegria, nem obrigação de ser feliz, mas é a coragem de sambar na cara da tristeza. O carnaval é tudo-ao-mesmo-tempo-agora e pode ser apenas o nada. Ele não tem receita nem forma. Pode ser a proteção e valorização das raízes e ainda sim a colheita de frutos melhores.

As críticas moralistas, rabugentas ou rancorosas não são novidades. Um outro compositor latino-americano já havia descrito que a felicidade é uma arma quente. Acertou em cheio! Como a alegria não é metralhadora, mas AK-47, os gritos e os risos atingiram a testa e incomodaram quem se alimenta de raiva, perfuraram seu orgulho e até a tentativa de reação saiu pela culatra.

Contra a carnificina dos nossos dias um carnaval de coragem. Com críticas problematizadoras, alegres e irreverentes. Críticas por dentro, no âmago do riso denunciante e na construção e reconstrução daquilo que há de mais belo na festa popular! A rua é do povo, o povo é da alegria e é direito cantar, dançar, sorrir e sonhar. Faz parte da luta.

Na Republiqueta onde o "Rei está Nu", onde a morosidade desmorona, onde as bananas se transformam em laranjas e a cultura é jogada no lixo, se vestir de palhaço e zombar da cara dos poderosos pode ser um fôlego para tirar do trono essa ganância no dia que “o morro descer e não for carnaval".

Tentarão nos enfiar em casa com medo, nos shoppings, nos templos, nas festas pagas, nos eventos plásticos, tentarão transformar exceções em regras, defecá-las sobre nós, fetichizando desvalores para desumanizar pessoas. Tentarão silenciar o povo, mas sempre haverá um bloco na rua botando pra gemer, o samba-denúncia escurecendo a avenida e a certeza de que somos melhores do que estamos sendo. Recordaremos, aos poucos, de que não somos feitos de ódio, rancor, desinformação e disputa. Tiraremos a fantasia bizarra e poderemos lutar contra as cinzas do reino da mediocridade.

Infeliz daquele que não tem carne de carnaval e que desconhece o viés libertador da profanação! Numa nação em que querem acabar com nossos direitos, tentam roubar nossa festa e nos fazer de palhaços: “Bobos-da-corte, uni-vos!"

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