O
voto no segundo turno de 2018: um apelo civilizatório
ao bom senso
Wescley
Pinheiro
Diante
de tudo que foi visto, vivido e não-visto nessa campanha
presidencial, faltando pouco tempo para a hora do voto, podemos fazer
um exercício de reflexão sobre a responsabilidade da atitude
individual e coletiva que depositaremos nas urnas no dia 28/10/2018.
Sem nenhum debate mais profundo quero apelar para o trivial.
Filtrando
as coisas importantes em meio à enxurrada de notícias falsas,
boataria, xingamentos e não-debates rasos sabemos que todo mundo
está insatisfeito com o rumo das coisas. Sabemos que há uma
profunda decepção com a política e com os políticos. Mais que
isso. Sabemos que existe descrédito com esses espaços e, sendo
assim, muita gente quer algo novo e, não aparecendo, essas pessoas
acabam por assumir uma posição de revolta e negação daquilo que
parece mais próximo ao que está estabelecido.
No
bloco dos descrentes e desacreditados, temos ainda os que lavam as
mãos e negam todo esse jogo e, por fim, existem aqueles que querem
evitar a imediaticidade de que o “pior dos mundos” seja
legitimado.
A
questão é que toda essa revolta não tem nos levado para um debate
mais profundo das coisas e, ao contrário disso, alimentou o pior
fenômeno dentro desse cenário: uma candidatura vazia, violenta e
incoerente.
Não
há segredo nessas últimas afirmações. Basta olhar tudo que falou
Bolsonaro durante sua vida pública para perceber o quanto ele muda
de opinião mais rápido do que de roupa quando o assunto sai de
chavões morais. É preciso só um pouco de atenção para observar
que ele não se entende com seu vice, com seus correligionários, com
os filhos, etc. O que os une é o ódio e muitos os apoiam pela
revolta contra tudo que está aí. Eles atiram para todos os lados,
bradando raiva e, em tempos de desespero, isso é muito bem quisto,
mas também, por vezes, o tiro sai pela culatra, como no caso das
diversas saias justas da campanha.
É
plenamente explicável todo o asco que, por tantas razões, as
pessoas tem com o Partido dos Trabalhadores. Seja por um sentimento
de traição, diante do discurso da ética, tão propagado até os
anos 1990 e distante de suas práticas no poder, seja pela
discordância moral com valores defendidos pela militância, seja
pelos críticos absorverem parte da narrativa midiática, que fala
grosso com tal partido, mas fino com tantos outros que cumprem
práticas iguais ou piores.
A
minha crítica ao PT é diferente e já o fiz em outros textos. Não
aprofundarei aqui, mas ela se consolida na questão da sua
estratégica e de suas táticas. Faço oposição ao Partido desde
2004, de lá para cá foram inúmeros embates, atos, eleições de
todas as ordens, construí com companheiros/as o comando nacional de
greve do maior movimento paredista das universidades federais durante
o governo Dilma.
A
compreensão de que o governo de conciliação do PT manteve a
essência de uma política hegemônica para as elites em detrimento
da classe trabalhadora é o fundamento dessa posição. Depois disso
todas as suas práticas repudiáveis e seu distanciamento do povo é
não somente explicável, mas combatido.
Dito
isto, é notório que não se pode esperar do PT uma autocrítica,
uma mudança, ele não é e não será esse partido. Porém, se minha
crítica não é passional, nem muito menos despolitizada ou ainda
moralista, é preciso analisar o cenário atual para compreender o
que está em jogo nessas eleições. Se não apoiamos o PT nas
eleições de 2006, 2010 e 2014, apesar de pleitearem no segundo
turno contra o terrível PSDB, e ainda, se o partido não mudou, por
que apoiaríamos agora?
Há
diferenças fundantes. Nas outras eleições identificávamos que
ambos os partidos da pseudopolarização tinham diferenças e
divergências mas que, em suma, estavam do mesmo lado nas políticas
essenciais para as elites e ainda se aproximavam a cada dia mais no
formato eleitoreiro e no aliancismo como modus operandi. O processo
agora é outro.
A
ameaça de Bolsonaro às liberdades democráticas o coloca fora de
qualquer pacto civilizatório. Não há aqui nenhum apoio cego ao PT,
nenhuma esperança que não seja a de barrar a imediata legitimação
da suposta alternativa com o mero despreparo, mentira e violência
diante dos erros e limites desse Partido. Nos textos “O ovo daserpente foi chocado: protofascismo brasileiro e novos desafiosfrente ao obscurantismo contemporâneo” (19/10/2018) e
“Protofascismo e cotidiano: a exacerbação da violência e o desafeto nosso de cada dia” (26/10/2018) tentei colocar de
forma mais profunda os elementos objetivos e subjetivos da ascensão
fascista de Bolsonaro. Agora quero apenas refletir de forma
pragmática e rápida, com elementos mais pueris, sobre a condição
eleitoral e faço isso na esperança de haver pessoas que ainda se
dão esse direito.
Não
quero convencer ninguém a votar no PT por que ele é bom. Não é.
Mas quero sim demonstrar que barrar Bolsonaro nas urnas é uma tarefa
humanitária ou um exercício mínimo de coerência e bom senso.
Você que se permite dialogar, defende a arte de questionamento e que
defendeu o voto em Bolsonaro ou o voto nulo até aqui, já viu
durante esses meses várias falas do candidato. Sem as notícias
falsas, sem os filtros dos comentários dos adversários, apenas por
seus depoimentos, é impossível não se chocar com o desdém que ele
nutre diante do que é humano.
Se
você criticou o PT por incoerência e por ter um vice como Temer por
que apoiaria um candidato que não se entende com o vice? Como
garantir estabilidade e autoridade assim? Se o candidato começa a
rever tudo que dizia antes da campanha o que garante que ele fará o
governo que você acredita e, por isso, depositou seu voto? O que
Bolsonaro pensa de políticas sociais como o bolsa família? Por que
mudou de posição? O que faz com que o candidato tenha medo de
debater? Essas alianças e práticas não tem o cheirinho daquilo que
você odeia, o populismo? Pois é, eu também não gosto não.
Sobre
as pautas morais e da corrupção também podemos dialogar. Qual a
diferença entre o ladrão que rouba pouco e o ladrão que rouba
muito? O caráter ou a oportunidade? Vendo com quem Bolsonaro anda e
o que ele fala é impossível sustentar qualquer humanismo cristão
em suas posições. Você pode detestar as bandeiras do PT, discordar
delas, mas um mero exercício de consciência pode ajudar a perceber
se o jeito com que Bolsonaro lida com as coisas é coerente com o
amor cristão. Por fim, se você odeia o PT pela corrupção, também
não faz sentido votar em outro corrupto. Se você critica os
petistas por não aceitarem as supostas provas em seus escândalos,
não é plausível que se faça o mesmo e, ainda, se você julga quem
roubou mais ou roubou menos está selecionando o bandido que teve
menos oportunidade, apenas isso.
No
fim das contas, pensando ainda de forma superficial, nas perspectivas
aqui colocadas, num exercício de lógica, Bolsonaro tem todos os
grandes defeitos do PT e nenhuma das suas mínimas qualidades. Não
aceita o livre arbítrio, está se aliando apenas com uma parcela de
líderes religiosos e não na defesa dos valores cristãos (e aqui
não entrarei no debate do estado laico e da diversidade religiosa).
Além de corrupto, já falou que controlará quem pode investigá-lo.
Quer manter o judiciário em suas mãos, como já ameaçou várias
vezes os tribunais eleitorais caso não ganhe e, por fim, é contra a
liberdade de imprensa e não aceita ser contrariado por ninguém.
Quem vota nulo precisa considerar essas diferenças.
Não
há como votar nulo nessa eleição e se abster diante da legitimação
do fim da contraposição, da possibilidade de questionamento, dos
órgãos de prestação de contas públicas, da racionalidade diante
daquilo que discordamos. Não é possível lavar as mãos diante de
toda a lama que tem nos levado às rupturas com amigos, familiares,
colegas de trabalho, potencializado casos de violência. Não há
como acreditar que Bolsonaro pode ser uma alternativa ao que está
aí, por que ele é a pior produção desse sistema político. Se o
PT tem responsabilidade nisso (e tem muita!), não faz o menor
sentido tentar resolver a situação pulando do precipício.
Você
pode discordar de mim, mas há de concordar que é correto tentar não
abrir mão da parca liberdade que temos. Após mais de dez anos
fazendo oposição ao PT quero garantir a possibilidade de continuar
divergindo, sem ameaça de morte, sem coerção, sem assédios. Quero
garantir direitos e quero ainda apelar para a percepção mais
singular, para seu olhar sensível, observando como estão aquelas
pessoas próximas a você, das quais você tem valores completamente
opostos, que você nega suas práticas mas que, por qualquer razão,
nutre afeto. Como elas estão e como ficarão em seus empregos, em
suas casas, em suas vidas se as violências que Bolsonaro propaga não
forem somente um exagero ou algo da boca para fora? Vale o risco?
O
verdadeiro mito que foi criado nessa eleição é de que os cristãos
tem que seguir o autoritarismo, a intolerância e a violência. Há
muitos por aí fazendo diferente. A falsa polarização levou muita
gente para o fascismo, mas quero aqui deixar minha admiração aos
homens e mulheres de fé, líderes religiosos e leigos que caminham
ao lado da democracia.
Um
outro mito importante é que todos que estão votando no PT votam por
aceitar todas suas práticas, não é verdade. Eis aqui o depoimento
de quem esteve e quer continuar estando no processo de contraposição
das práticas petistas e que, por isso, defende a democracia.
Não
existe dois extremos no segundo turno, só um. Existe o PT, pelego,
conciliador, social-liberal e aliancista. Do outro lado existe
Bolsonaro, autoritário, violento, incoerente, mentiroso,
despreparado, ditador e extremista. Você que odeia o PT pelos
motivos mais diversos (sabemos que não faltam) pense se vale a pena
jogar fora a democracia por um sentimento de vingança ou se é
melhor construir uma alternativa real daquilo que você acredita. Na
altura do campeonato você já notou que Bolsonaro não é.
Você
que apoiou Bolsonaro até aqui, por revolta com a política, por
decepção com os políticos, por não enxergar saídas para os
problemas, mas começou a achar que ele é “mais do mesmo” ou,
pior, que aquela violência e incoerência não condiz com seus
valores, não há vergonha em recuar. Se você não gosta de ambos os
lados vote em quem você poderá fazer oposição ano que vem. Se
você detesta o PT, mas ama a democracia, vote em Haddad para poder
garantir possibilidade de pensar diferente e ter condição de lutar
por mínimos direitos.
Entre você e a urna não estarão os jornalistas, os comentaristas de internet, os militantes, os pastores, as notícias falsas, o proselitismo. Não estará a chantagem do menos pior e nem o desespero por um governo autoritário para negar aparentemente tudo que aí está. Estará apenas você e sua condição diante das alternativas postas e o que isso pode representar no presente e no futuro. Estará você e sua humanidade, sua capacidade de reflexão, sua potencialidade de se colocar no lugar do outro e eu torço que toda essa rivalidade que tem se construído como se fosse um jogo de futebol, inclusive por quem vota nulo, não tenha eliminado sua sensibilidade, seu bom senso e sua responsabilidade.
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Entre você e a urna não estarão os jornalistas, os comentaristas de internet, os militantes, os pastores, as notícias falsas, o proselitismo. Não estará a chantagem do menos pior e nem o desespero por um governo autoritário para negar aparentemente tudo que aí está. Estará apenas você e sua condição diante das alternativas postas e o que isso pode representar no presente e no futuro. Estará você e sua humanidade, sua capacidade de reflexão, sua potencialidade de se colocar no lugar do outro e eu torço que toda essa rivalidade que tem se construído como se fosse um jogo de futebol, inclusive por quem vota nulo, não tenha eliminado sua sensibilidade, seu bom senso e sua responsabilidade.
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