sábado, 27 de outubro de 2018

O voto no segundo turno de 2018: um apelo civilizatório ao bom senso

O voto no segundo turno de 2018: um apelo civilizatório ao bom senso
Wescley Pinheiro

Diante de tudo que foi visto, vivido e não-visto nessa campanha presidencial, faltando pouco tempo para a hora do voto, podemos fazer um exercício de reflexão sobre a responsabilidade da atitude individual e coletiva que depositaremos nas urnas no dia 28/10/2018. Sem nenhum debate mais profundo quero apelar para o trivial.

Filtrando as coisas importantes em meio à enxurrada de notícias falsas, boataria, xingamentos e não-debates rasos sabemos que todo mundo está insatisfeito com o rumo das coisas. Sabemos que há uma profunda decepção com a política e com os políticos. Mais que isso. Sabemos que existe descrédito com esses espaços e, sendo assim, muita gente quer algo novo e, não aparecendo, essas pessoas acabam por assumir uma posição de revolta e negação daquilo que parece mais próximo ao que está estabelecido. 

No bloco dos descrentes e desacreditados, temos ainda os que lavam as mãos e negam todo esse jogo e, por fim, existem aqueles que querem evitar a imediaticidade de que o “pior dos mundos” seja legitimado.

A questão é que toda essa revolta não tem nos levado para um debate mais profundo das coisas e, ao contrário disso, alimentou o pior fenômeno dentro desse cenário: uma candidatura vazia, violenta e incoerente.

Não há segredo nessas últimas afirmações. Basta olhar tudo que falou Bolsonaro durante sua vida pública para perceber o quanto ele muda de opinião mais rápido do que de roupa quando o assunto sai de chavões morais. É preciso só um pouco de atenção para observar que ele não se entende com seu vice, com seus correligionários, com os filhos, etc. O que os une é o ódio e muitos os apoiam pela revolta contra tudo que está aí. Eles atiram para todos os lados, bradando raiva e, em tempos de desespero, isso é muito bem quisto, mas também, por vezes, o tiro sai pela culatra, como no caso das diversas saias justas da campanha.

É plenamente explicável todo o asco que, por tantas razões, as pessoas tem com o Partido dos Trabalhadores. Seja por um sentimento de traição, diante do discurso da ética, tão propagado até os anos 1990 e distante de suas práticas no poder, seja pela discordância moral com valores defendidos pela militância, seja pelos críticos absorverem parte da narrativa midiática, que fala grosso com tal partido, mas fino com tantos outros que cumprem práticas iguais ou piores.

A minha crítica ao PT é diferente e já o fiz em outros textos. Não aprofundarei aqui, mas ela se consolida na questão da sua estratégica e de suas táticas. Faço oposição ao Partido desde 2004, de lá para cá foram inúmeros embates, atos, eleições de todas as ordens, construí com companheiros/as o comando nacional de greve do maior movimento paredista das universidades federais durante o governo Dilma.

A compreensão de que o governo de conciliação do PT manteve a essência de uma política hegemônica para as elites em detrimento da classe trabalhadora é o fundamento dessa posição. Depois disso todas as suas práticas repudiáveis e seu distanciamento do povo é não somente explicável, mas combatido.

Dito isto, é notório que não se pode esperar do PT uma autocrítica, uma mudança, ele não é e não será esse partido. Porém, se minha crítica não é passional, nem muito menos despolitizada ou ainda moralista, é preciso analisar o cenário atual para compreender o que está em jogo nessas eleições. Se não apoiamos o PT nas eleições de 2006, 2010 e 2014, apesar de pleitearem no segundo turno contra o terrível PSDB, e ainda, se o partido não mudou, por que apoiaríamos agora?

Há diferenças fundantes. Nas outras eleições identificávamos que ambos os partidos da pseudopolarização tinham diferenças e divergências mas que, em suma, estavam do mesmo lado nas políticas essenciais para as elites e ainda se aproximavam a cada dia mais no formato eleitoreiro e no aliancismo como modus operandi. O processo agora é outro.

A ameaça de Bolsonaro às liberdades democráticas o coloca fora de qualquer pacto civilizatório. Não há aqui nenhum apoio cego ao PT, nenhuma esperança que não seja a de barrar a imediata legitimação da suposta alternativa com o mero despreparo, mentira e violência diante dos erros e limites desse Partido. Nos textos “O ovo daserpente foi chocado: protofascismo brasileiro e novos desafiosfrente ao obscurantismo contemporâneo” (19/10/2018) e “Protofascismo e cotidiano: a exacerbação da violência e o desafeto nosso de cada dia” (26/10/2018) tentei colocar de forma mais profunda os elementos objetivos e subjetivos da ascensão fascista de Bolsonaro. Agora quero apenas refletir de forma pragmática e rápida, com elementos mais pueris, sobre a condição eleitoral e faço isso na esperança de haver pessoas que ainda se dão esse direito.

Não quero convencer ninguém a votar no PT por que ele é bom. Não é. Mas quero sim demonstrar que barrar Bolsonaro nas urnas é uma tarefa humanitária ou um exercício mínimo de coerência e bom senso. Você que se permite dialogar, defende a arte de questionamento e que defendeu o voto em Bolsonaro ou o voto nulo até aqui, já viu durante esses meses várias falas do candidato. Sem as notícias falsas, sem os filtros dos comentários dos adversários, apenas por seus depoimentos, é impossível não se chocar com o desdém que ele nutre diante do que é humano.

Se você criticou o PT por incoerência e por ter um vice como Temer por que apoiaria um candidato que não se entende com o vice? Como garantir estabilidade e autoridade assim? Se o candidato começa a rever tudo que dizia antes da campanha o que garante que ele fará o governo que você acredita e, por isso, depositou seu voto? O que Bolsonaro pensa de políticas sociais como o bolsa família? Por que mudou de posição? O que faz com que o candidato tenha medo de debater? Essas alianças e práticas não tem o cheirinho daquilo que você odeia, o populismo? Pois é, eu também não gosto não.

Sobre as pautas morais e da corrupção também podemos dialogar. Qual a diferença entre o ladrão que rouba pouco e o ladrão que rouba muito? O caráter ou a oportunidade? Vendo com quem Bolsonaro anda e o que ele fala é impossível sustentar qualquer humanismo cristão em suas posições. Você pode detestar as bandeiras do PT, discordar delas, mas um mero exercício de consciência pode ajudar a perceber se o jeito com que Bolsonaro lida com as coisas é coerente com o amor cristão. Por fim, se você odeia o PT pela corrupção, também não faz sentido votar em outro corrupto. Se você critica os petistas por não aceitarem as supostas provas em seus escândalos, não é plausível que se faça o mesmo e, ainda, se você julga quem roubou mais ou roubou menos está selecionando o bandido que teve menos oportunidade, apenas isso.

No fim das contas, pensando ainda de forma superficial, nas perspectivas aqui colocadas, num exercício de lógica, Bolsonaro tem todos os grandes defeitos do PT e nenhuma das suas mínimas qualidades. Não aceita o livre arbítrio, está se aliando apenas com uma parcela de líderes religiosos e não na defesa dos valores cristãos (e aqui não entrarei no debate do estado laico e da diversidade religiosa). Além de corrupto, já falou que controlará quem pode investigá-lo. Quer manter o judiciário em suas mãos, como já ameaçou várias vezes os tribunais eleitorais caso não ganhe e, por fim, é contra a liberdade de imprensa e não aceita ser contrariado por ninguém. Quem vota nulo precisa considerar essas diferenças.

Não há como votar nulo nessa eleição e se abster diante da legitimação do fim da contraposição, da possibilidade de questionamento, dos órgãos de prestação de contas públicas, da racionalidade diante daquilo que discordamos. Não é possível lavar as mãos diante de toda a lama que tem nos levado às rupturas com amigos, familiares, colegas de trabalho, potencializado casos de violência. Não há como acreditar que Bolsonaro pode ser uma alternativa ao que está aí, por que ele é a pior produção desse sistema político. Se o PT tem responsabilidade nisso (e tem muita!), não faz o menor sentido tentar resolver a situação pulando do precipício.

Você pode discordar de mim, mas há de concordar que é correto tentar não abrir mão da parca liberdade que temos. Após mais de dez anos fazendo oposição ao PT quero garantir a possibilidade de continuar divergindo, sem ameaça de morte, sem coerção, sem assédios. Quero garantir direitos e quero ainda apelar para a percepção mais singular, para seu olhar sensível, observando como estão aquelas pessoas próximas a você, das quais você tem valores completamente opostos, que você nega suas práticas mas que, por qualquer razão, nutre afeto. Como elas estão e como ficarão em seus empregos, em suas casas, em suas vidas se as violências que Bolsonaro propaga não forem somente um exagero ou algo da boca para fora? Vale o risco?

O verdadeiro mito que foi criado nessa eleição é de que os cristãos tem que seguir o autoritarismo, a intolerância e a violência. Há muitos por aí fazendo diferente. A falsa polarização levou muita gente para o fascismo, mas quero aqui deixar minha admiração aos homens e mulheres de fé, líderes religiosos e leigos que caminham ao lado da democracia.
Um outro mito importante é que todos que estão votando no PT votam por aceitar todas suas práticas, não é verdade. Eis aqui o depoimento de quem esteve e quer continuar estando no processo de contraposição das práticas petistas e que, por isso, defende a democracia.

Não existe dois extremos no segundo turno, só um. Existe o PT, pelego, conciliador, social-liberal e aliancista. Do outro lado existe Bolsonaro, autoritário, violento, incoerente, mentiroso, despreparado, ditador e extremista. Você que odeia o PT pelos motivos mais diversos (sabemos que não faltam) pense se vale a pena jogar fora a democracia por um sentimento de vingança ou se é melhor construir uma alternativa real daquilo que você acredita. Na altura do campeonato você já notou que Bolsonaro não é.

Você que apoiou Bolsonaro até aqui, por revolta com a política, por decepção com os políticos, por não enxergar saídas para os problemas, mas começou a achar que ele é “mais do mesmo” ou, pior, que aquela violência e incoerência não condiz com seus valores, não há vergonha em recuar. Se você não gosta de ambos os lados vote em quem você poderá fazer oposição ano que vem. Se você detesta o PT, mas ama a democracia, vote em Haddad para poder garantir possibilidade de pensar diferente e ter condição de lutar por mínimos direitos. 

Entre você e a urna não estarão os jornalistas, os comentaristas de internet, os militantes, os pastores, as notícias falsas, o proselitismo. Não estará a chantagem do menos pior e nem o desespero por um governo autoritário para negar aparentemente tudo que aí está. Estará apenas você e sua condição diante das alternativas postas e o que isso pode representar no presente e no futuro. Estará você e sua humanidade, sua capacidade de reflexão, sua potencialidade de se colocar no lugar do outro e eu torço que toda essa rivalidade que tem se construído como se fosse um jogo de futebol, inclusive por quem vota nulo, não tenha eliminado sua sensibilidade, seu bom senso e sua responsabilidade.


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